Quando o limite se torna insuportável: uma análise psicanalítica e criminológica da intolerância masculina ao “não”
Introdução
Há um fenômeno que atravessa silenciosamente a vida social e
que, quando explode, revela sua face mais devastadora: a incapacidade de
muitos homens de tolerar o “não”. Esse “não” pode ser o fim de uma relação,
a discordância em uma conversa, a autonomia de alguém que antes era controlado,
a frustração diante de um desejo não atendido, a perda de poder em um contexto
familiar, afetivo ou institucional. Embora nem sempre resulte em violência
extrema, essa intolerância ao limite é um eixo central na compreensão de
comportamentos destrutivos.
A psicanálise e a criminologia, cada uma a seu modo, oferecem
ferramentas potentes para compreender por que tantos homens entram em colapso
diante da frustração, por que transformam o limite em ameaça e por que, em
alguns casos, respondem com agressividade, controle, perseguição ou destruição. A psicanálise ilumina o que se passa
no nível do sujeito: o narcisismo ferido, a dificuldade de simbolizar a perda,
a fantasia de onipotência e a recusa em reconhecer o outro como sujeito. A
criminologia, por sua vez, mostra como essas dinâmicas subjetivas se articulam
com estruturas sociais, culturais e institucionais que reforçam a desigualdade
de gênero e a lógica da posse.
Este texto propõe uma análise desse fenômeno, articulando
dimensões subjetivas e sociais, e mostrando como a formação da masculinidade
tradicional cria sujeitos que não sabem lidar com o contraditório. Ao
final, sugere caminhos possíveis para uma transformação cultural que permita a
construção de relações mais saudáveis, éticas e simbólicas.
1. A formação subjetiva masculina e a recusa do contraditório
A socialização masculina tradicional é marcada por
expectativas rígidas: força, controle, invulnerabilidade, racionalidade,
domínio. Desde cedo, meninos são ensinados a não chorar, a não demonstrar
fragilidade, a não pedir ajuda. São incentivados a competir, a vencer, a
dominar. A vulnerabilidade é vista como fraqueza; a dependência, como vergonha;
o limite, como humilhação.
Essa educação emocional precária impede que muitos homens
desenvolvam recursos psíquicos para lidar com frustração. Quando a vida lhes
impõe limites, como a separação, a discordância ou a perda de controle, eles
não conseguem simbolizar a dor. Em vez disso, recorrem a defesas primitivas: negação,
projeção, agressividade.
A psicanálise mostra que o limite é fundamental para a
constituição do sujeito. É o “não” do outro, inicialmente da mãe, depois do pai, da escola, da
sociedade, que permite ao sujeito reconhecer que não é onipotente, que o outro
existe e tem desejos próprios. Quando essa experiência não é elaborada, o
sujeito permanece preso a uma posição infantil, na qual qualquer frustração é
vivida como ataque.
2. O “não” como operador simbólico na psicanálise
Para Freud, o limite é estruturante. É ele que separa o desejo da
realidade, o eu do outro, o possível do impossível. Sem limite, não há
simbolização; sem simbolização, não há sujeito.
Lacan aprofunda essa ideia ao afirmar que o sujeito só se
constitui na falta.
O “não” é o que inaugura o desejo. É o que permite ao sujeito reconhecer que o
outro não é extensão de si. É o que possibilita a entrada na linguagem, na
cultura, na vida simbólica.
Quando o sujeito não suporta o “não”, ele não suporta a
falta. E quando não suporta a falta, não suporta o outro. O outro se torna
ameaça, obstáculo, inimigo. A agressividade surge como resposta à impossibilidade de aceitar que o
outro é diferente, que o outro deseja outra coisa, que o outro não está ali
para satisfazer.
3. Narcisismo frágil e colapso diante da frustração
O narcisismo é uma estrutura fundamental da vida psíquica.
Todos precisamos de autoestima para viver. Mas, em alguns casos, o narcisismo é tão frágil que
qualquer frustração é vivida como ameaça à própria existência.
Homens com narcisismo frágil tendem a reagir de forma
desproporcional a contradições. O “não” da mulher é vivido como ataque
pessoal. A autonomia dela é vivida como traição. A decisão dela de ir embora é
vivida como destruição.
A psicanálise aponta que, quando o sujeito não consegue
elaborar a perda, ele pode recorrer à destruição. É o que Freud chamou de “pulsão de
morte”: uma tendência à repetição, à destruição, ao retorno ao inorgânico. Essa
pulsão não é “maligna”; é parte da vida psíquica. Mas, quando não é
simbolizada, pode assumir formas devastadoras.
4. A criminologia e a cultura do controle masculino
A criminologia crítica insiste que a violência masculina não
é apenas expressão de impulsos individuais, mas de uma estrutura de poder. Homens são socializados para ocupar
posições de autoridade, para tomar decisões, para controlar o ambiente ao
redor. Quando essa posição é ameaçada, seja por uma separação, por uma
discordância, por uma perda de status, alguns reagem com violência.
Criminologistas como Rita Segato e Heleieth Saffioti mostram
que a violência masculina é frequentemente uma tentativa de restaurar um poder
perdido. Não se trata de “ódio”, mas de controle. Não se trata de “ciúme”,
mas de posse. Não se trata de “amor”, mas de domínio.
Quando o homem perde o controle sobre a mulher, ou sobre
qualquer pessoa que ele considera extensão de si, ele sente que perde a própria
identidade. A violência aparece como forma de restaurar essa identidade.
5. A violência como resposta à perda de poder
A perda de poder é vivida por muitos homens como humilhação
intolerável. A psicanálise mostra que a humilhação é uma das experiências mais
difíceis de simbolizar. Ela toca diretamente o narcisismo. Ela expõe a
fragilidade. Ela revela a falta.
Quando o sujeito não consegue elaborar a humilhação, ele pode
reagir com agressividade. A violência aparece como tentativa de apagar a dor.
Como tentativa de restaurar o poder perdido. Como tentativa de destruir aquilo
que simboliza a perda.
A criminologia mostra que muitos atos violentos cometidos por
homens têm essa lógica: restaurar o poder perdido. Não se trata de “raiva”, mas
de identidade. Não se trata de “impulso”, mas de estrutura.
6. A fantasia de vingança
A fantasia de vingança é comum em casos de violência
masculina. Ela surge quando o sujeito sente que foi ferido, humilhado ou
contrariado. A
vingança aparece como forma de restaurar o narcisismo ferido. Não se trata de
“ódio” no sentido comum, mas de um ódio narcísico: o objeto amado se
transforma em objeto odiado porque ousou frustrar o sujeito.
Pela ótica da psicanálise, sabe-se que, em estruturas
psíquicas mais frágeis, a vingança pode assumir formas extremas. O sujeito não
quer apenas punir; quer destruir. Quer deixar uma marca. Quer fazer o outro
sofrer.
7. A sociedade que autoriza homens a não suportarem limites
A sociedade é cúmplice quando:
- minimiza
comportamentos controladores
- romantiza
o ciúme
- culpa
a vítima
- protege
homens poderosos
- desacredita
denúncias
- naturaliza
a violência psicológica
A masculinidade tradicional é uma prisão subjetiva. Ela impede que homens desenvolvam
recursos psíquicos para lidar com frustração. Ela ensina que vulnerabilidade é
fraqueza. Ela impede que homens reconheçam limites.
8. A prisão da masculinidade tradicional
A masculinidade tradicional funciona como uma armadura. Ela
promete proteção, mas cobra um preço alto: impede o sujeito de se relacionar
com sua própria fragilidade. Impede o sujeito de reconhecer que depende do
outro. Impede o sujeito de aceitar que o outro é livre.
Essa armadura cria homens que:
- não
sabem pedir ajuda
- não
sabem elaborar perdas
- não
sabem lidar com frustração
- não
sabem reconhecer limites
- não
sabem simbolizar a dor
- não
sabem renunciar ao controle
A renúncia é fundamental para a vida psíquica. Renunciar ao
controle, renunciar à onipotência, renunciar à fantasia de completude. Sem
renúncia, não há desejo. Sem desejo, não há sujeito.
9. A destrutividade como resposta à perda
Quando o sujeito não consegue elaborar a perda, ele pode
recorrer à destruição. A destruição aparece como tentativa de apagar a dor.
Como tentativa de restaurar o poder perdido. Como tentativa de destruir aquilo
que simboliza a perda. A destrutividade é parte da vida psíquica, mas, quando
não é simbolizada, pode assumir formas devastadoras.
10. A dimensão política da intolerância ao limite
A intolerância masculina ao “não” não é apenas um fenômeno
psicológico. Ela é também política. Ela se manifesta em:
- homens
que não aceitam ser contrariados em posições de poder
- líderes
que reagem com agressividade a críticas
- figuras
públicas que confundem discordância com ataque pessoal
- instituições
que reproduzem hierarquias rígidas
Pela lente da criminologia, a violência não é apenas física.
Ela pode ser simbólica, institucional, discursiva. A recusa ao limite é também
recusa à democracia, à pluralidade, ao dissenso.
11. A dimensão filosófica: o outro como limite
A filosofia existencial e fenomenológica também oferece
ferramentas para pensar esse fenômeno. Emmanuel Levinas, por exemplo, afirma
que o outro é sempre um limite. O rosto do outro nos convoca à
responsabilidade. O outro nos lembra que não somos tudo, que não controlamos
tudo, que não somos o centro do mundo.
A intolerância ao “não” é, portanto, também uma recusa ao
outro. Uma recusa à alteridade. Uma recusa à ética.
12. Caminhos possíveis
Para enfrentar a destrutividade masculina diante do “não”, é
preciso:
- educar
meninos para lidar com frustração
- ensinar
homens a reconhecer limites
- promover
saúde emocional masculina
- fortalecer
redes de apoio
- responsabilizar
agressores
- desconstruir
a cultura da posse
- criar
espaços de escuta e elaboração psíquica
A psicanálise pode contribuir oferecendo espaços de
elaboração e a criminologia pode
contribuir analisando padrões e propondo políticas públicas. Mas a
transformação depende de todos.
Conclusão
A intolerância masculina ao “não” é um fenômeno complexo, que
envolve subjetividade, cultura, poder e identidade. A psicanálise ajuda a
compreender a estrutura psíquica que sustenta essa intolerância. A criminologia
mostra como ela se manifesta socialmente. Juntas, essas áreas apontam para a
necessidade urgente de transformação: subjetiva, institucional e cultural.
Enquanto a sociedade como um todo não repensar a formação da
masculinidade, continuaremos assistindo a comportamentos destrutivos criminosos
que poderiam ser evitados. A mudança começa no modo como educamos meninos, no
modo como entendemos o poder, no modo como reconhecemos o outro como sujeito.
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