A ausência de consequência se transforma em formação afetiva: um ensaio psicanalítico


Introdução: o que não acontece também insiste

Antes de entrar no tema central deste ensaio, vale esclarecer um ponto que costuma gerar confusão fora do campo psicanalítico: o que é “afeto” na psicanálise? No uso cotidiano, a palavra costuma remeter a carinho, emoção, sensibilidade. Mas, para a psicanálise, o termo tem um sentido mais amplo e mais técnico.

Afeto, nesse contexto, é tudo aquilo que sentimos, mas não apenas no sentido emocional. É a energia psíquica que se liga às nossas experiências, pensamentos, lembranças e fantasias. Freud descrevia o afeto como a “carga” que acompanha uma representação: aquilo que dá intensidade, cor, força e movimento à vida mental. Pode ser amor, ódio, angústia, alegria, vergonha, excitação, culpa, desejo, irritação. Pode ser algo claro ou algo difuso. Pode ser uma emoção reconhecida ou um mal-estar sem nome.

O ponto essencial é: o afeto sempre procura um destino. Ele precisa se ligar a algo, uma palavra, uma imagem, uma ideia, um gesto, um sintoma. Quando isso não acontece, quando o afeto não encontra um caminho para se expressar ou se simbolizar, ele não desaparece. Ele se transforma.

É justamente aqui que a frase que orienta este ensaio ganha força: “A ausência de consequência se transforma em formação afetiva.”

Essa frase toca um ponto sensível da experiência humana: aquilo que não se conclui, não se responde, não se simboliza, não se dissolve. Ao contrário, ganha corpo, adquire densidade, infiltra-se na vida emocional como uma presença silenciosa, mas determinante. A psicanálise, desde Freud, insiste que o inconsciente não tolera o vazio. Onde falta inscrição, o psiquismo cria; onde falta resposta, o afeto se adensa; onde falta consequência, algo se forma e, muitas vezes, se forma de modo tortuoso, repetitivo, sintomático.

Freud já dizia, em Estudos sobre a Histeria (1895), que o afeto não some: ele se desloca, se converte, se transforma. A ausência de consequência é, portanto, um terreno fértil para a produção de formações afetivas. Este ensaio explora essa ideia articulando autores clássicos como Freud, Klein, Winnicott, Lacan e contemporâneos como Green, Laplanche, McDougall, Birman e Dunker, para compreender como o que não acontece pode se tornar tão psíquico quanto o que acontece.

 

Freud: o destino dos afetos e a lógica do retorno

Sigmund Freud inaugura a psicanálise afirmando que o afeto é indestrutível. Em A Interpretação dos Sonhos (1900), ele descreve como representações podem ser recalcadas, mas o afeto ligado a elas permanece ativo, buscando novos destinos. O que não encontra consequência simbólica, isto é, o que não se liga a uma representação, retorna como sintoma, angústia, formação reativa ou repetição.

A ausência de consequência, nesse sentido, não é ausência de efeito. É produção de outro tipo de efeito.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud introduz a compulsão à repetição: o sujeito repete não porque deseja repetir, mas porque algo não foi simbolizado. A repetição é a consequência da não consequência. O que não se conclui insiste. O que não se elabora retorna. O que não se simboliza se repete.

Freud também descreve, em textos sobre neurose traumática, que o trauma não é apenas o excesso de estímulo, mas também a falha de elaboração. O que não encontra consequência psíquica se transforma em angústia livre, sem representação.

A frase que guia este artigo ecoa diretamente o que Freud chamou de “destino dos afetos”: o afeto que não encontra destino adequado se transforma em outra coisa, e essa outra coisa é sempre afetiva.

 

Klein: quando a ausência vira fantasia

Melanie Klein aprofunda a dimensão emocional primitiva. Para ela, o bebê vive em um mundo de fantasias inconscientes que organizam sua experiência. Quando o ambiente falha, quando há ausência de consequência entre a necessidade e a resposta, o bebê preenche o vazio com fantasias persecutórias ou idealizadas.

Em Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946), Klein descreve como a ausência de resposta materna pode ser vivida como ataque. O bebê não pensa: “minha mãe está ocupada”. Ele sente: “algo terrível aconteceu”. A ausência de consequência externa se transforma em excesso interno.

A ausência, para Klein, não é neutra. É vivida como excesso. O bebê cria teorias afetivas para suportar o que não compreende. A ausência de consequência ambiental se converte em formação afetiva persecutória, idealizada ou maníaca.

 

Winnicott: o ambiente que falha e o falso self

Donald Winnicott, em Da Pediatria à Psicanálise (1958) e O Ambiente e os Processos de Maturação (1960), introduz a ideia de que o ambiente suficientemente bom permite ao bebê experimentar a ilusão de onipotência e, gradualmente, a desilusão. Quando o ambiente falha, quando não há consequência entre gesto e resposta, o bebê não consegue integrar suas experiências.

A ausência de consequência ambiental pode gerar:

  • falso self
  • angústias impensáveis
  • hiperadaptação
  • sensação de irrealidade
  • dependência rígida

Para Winnicott, a consequência é o que permite ao bebê sentir-se real. Quando ela falta, o sujeito cria formações afetivas defensivas para sobreviver. O falso self é uma dessas formações: uma adaptação exagerada ao ambiente que impede o sujeito de viver a própria espontaneidade.

Winnicott também afirma que o bebê se vê no olhar da mãe. Se o olhar não devolve nada, o bebê não se encontra. A ausência de consequência do olhar materno se transforma em formação afetiva: um self que se sente vazio, inexistente ou artificial.

 

Lacan: a consequência simbólica e o corte que funda o sujeito

Jacques Lacan desloca a discussão para o campo do simbólico. Em Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964), ele afirma que o sujeito se constitui na relação com o Outro, especialmente através da linguagem. A consequência, nesse sentido, é a inscrição simbólica: o significante que marca, que nomeia, que ordena.

Quando há ausência de consequência simbólica, quando o Outro não responde, não nomeia, não inscreve, o sujeito fica à deriva no campo do desejo.

Essa ausência pode gerar:

  • acting out
  • passagem ao ato
  • sintomas como formações de compromisso
  • gozo sem limite
  • fixações imaginárias

Para Lacan, a consequência é o corte simbólico que separa o sujeito do gozo. Quando esse corte não ocorre, o afeto se torna invasivo, sem bordas. A ausência de consequência simbólica se transforma em excesso afetivo.

 

Green: o negativo como presença ativa

André Green, em O Trabalho do Negativo (1988), desenvolve a teoria do negativo. Para ele, o que não acontece, o que não se diz, o que não se inscreve, produz efeitos psíquicos tão potentes quanto o que acontece.

A ausência de consequência é um tipo de negativo. E o negativo, para Green, é ativo: ele produz formações afetivas como:

  • vazio ativo
  • estados-limite
  • desobjetalização
  • angústias sem representação

Green mostra que o negativo não é ausência: é presença da ausência. O sujeito pode ser habitado por um vazio que não é falta, mas excesso de falta.

 

Laplanche: o enigma que não encontra tradução

Jean Laplanche, em Novos Fundamentos para a Psicanálise (1987), propõe que o sujeito nasce diante de mensagens enigmáticas do adulto. Quando essas mensagens não são traduzidas, quando não encontram consequência simbólica, tornam-se núcleos inconscientes que organizam a vida afetiva.

A ausência de consequência da mensagem do Outro gera:

  • sexualidade enigmática
  • fantasias originárias
  • sintomas como traduções falhadas

A formação afetiva, nesse caso, é a tentativa permanente de traduzir o que não foi traduzido.

 

McDougall: quando o corpo assume a tarefa de sentir

Joyce McDougall, em Teatros do Corpo (1989), mostra que quando o sujeito não consegue simbolizar afetos, quando não há consequência psíquica para a experiência, o corpo assume a tarefa de expressar.

A ausência de consequência simbólica se transforma em formação afetiva corporal:

  • crises psicossomáticas
  • compulsões
  • adições
  • teatralizações do corpo

O corpo fala quando a psique não consegue.

 


A ausência de consequência na clínica contemporânea

A clínica atual é marcada por subjetividades fragmentadas, hiperconectadas e frequentemente desamparadas. Joel Birman, em Mal-Estar na Atualidade (1999), descreve como vivemos em uma cultura que produz excesso de estímulos e falta de elaboração. Christian Ingo L. Dunker, em Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma (2015), observa que a sociedade contemporânea oferece intensidade, mas não oferece consequência.

Vivemos em um ambiente onde ações, palavras e vínculos muitas vezes não têm consequência. Essa ausência se transforma em formações afetivas como:

  • ansiedade difusa
  • sensação de vazio
  • hiperafetividade
  • vínculos instáveis
  • dependência emocional
  • busca incessante por validação

A consequência, nesse contexto, é substituída por intensidade. Onde falta simbolização, sobra afeto bruto.

 

A ausência de consequência no amor

O amor, na psicanálise, é sempre marcado pela falta. Mas quando a falta se torna ausência de consequência, quando o outro não responde, não se compromete, não se implica, o amor pode se transformar em:

  • idealização
  • ciúme
  • dependência
  • ódio
  • apego ansioso
  • repetição de padrões

A ausência de consequência afetiva do outro se transforma em formação afetiva interna: o sujeito cria narrativas para preencher o vazio deixado pelo outro.

 

A ausência de consequência como motor da repetição

A repetição é uma das formações afetivas mais emblemáticas da ausência de consequência. O sujeito repete porque algo não se concluiu, não se simbolizou, não se inscreveu.

A repetição é a consequência da não consequência.

 

Trauma: o que não aconteceu também fere

O trauma, na psicanálise, não é apenas o excesso de estímulo, mas também a ausência de resposta. O que traumatiza não é apenas o que acontece, mas o que não acontece.

A ausência de consequência diante do sofrimento, quando ninguém vê, ninguém nomeia, ninguém acolhe, transforma-se em formação afetiva traumática.

 

A ausência de consequência como fenômeno social

Vivemos em uma sociedade que frequentemente:

  • não sustenta limites
  • não oferece continuidade
  • não garante estabilidade
  • não reconhece subjetividades

Essa ausência de consequência social se transforma em formações afetivas coletivas:

  • polarização
  • intolerância
  • vínculos frágeis
  • hiperindividualismo
  • angústia social

A psicanálise, ao analisar o sujeito, também analisa o laço social.

 

Conclusão: o sujeito precisa de consequência para existir

A frase “A ausência de consequência se transforma em formação afetiva” sintetiza um princípio fundamental da psicanálise: o psiquismo não suporta o vazio. Onde falta consequência, o sujeito cria. Onde falta simbolização, o afeto se impõe. Onde falta resposta, nasce fantasia. Onde falta limite, surge angústia. Onde falta inscrição, aparece repetição.

A consequência, simbólica, afetiva, relacional ou social, é condição para a saúde psíquica. Sua ausência não produz neutralidade, mas excesso. Não produz silêncio, mas ruído. Não produz vazio, mas preenchimentos imaginários.

A psicanálise, ao escutar o sujeito, escuta também suas ausências. E reconhece que, muitas vezes, é justamente naquilo que não aconteceu que se encontra o núcleo mais vivo da formação afetiva.

 

Referências Bibliográficas

Birman, J. (1999). Mal-estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Civilização Brasileira.
Dunker, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma. Boitempo.
Freud, S. (1895). Estudos sobre a histeria. Imago.
Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos. Imago.
Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Imago.
Green, A. (1988). O trabalho do negativo. Imago.
Klein, M. (1935/1946). Escritos de psicanálise. Imago.
Lacan, J. (1953–1964). Escritos. Zahar.
Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11. Zahar.
Laplanche, J. (1987). Novos fundamentos para a psicanálise. Martins Fontes.
McDougall, J. (1989). Teatros do corpo. Imago.
Winnicott, D. W. (1958/1960). Da pediatria à psicanálise; O ambiente e os processos de maturação. Imago; Artes Médicas.

 

 


 

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