A ausência de consequência se transforma em formação afetiva: um ensaio psicanalítico
Introdução: o que não acontece também insiste Antes de entrar no tema central deste ensaio, vale esclarecer um ponto que costuma gerar confusão fora do campo psicanalítico: o que é “afeto” na psicanálise? No uso cotidiano, a palavra costuma remeter a carinho, emoção, sensibilidade. Mas, para a psicanálise, o termo tem um sentido mais amplo e mais técnico. Afeto, nesse contexto, é tudo aquilo que sentimos, mas não apenas no sentido emocional . É a energia psíquica que se liga às nossas experiências, pensamentos, lembranças e fantasias. Freud descrevia o afeto como a “carga” que acompanha uma representação: aquilo que dá intensidade, cor, força e movimento à vida mental. Pode ser amor, ódio, angústia, alegria, vergonha, excitação, culpa, desejo, irritação. Pode ser algo claro ou algo difuso. Pode ser uma emoção reconhecida ou um mal-estar sem nome. O ponto essencial é: o afeto sempre procura um destino . Ele precisa se ligar a algo, uma palavra, uma imagem, uma ideia, um gesto, um...