As Redes Sociais São Orquestradas Pela Inveja: Como as Arquiteturas das Redes Sociais Amplificam Fantasias de Inveja e Moldam o Desejo

 


A afirmação “As redes sociais são orquestradas pela inveja”, dita pelo psicólogo Dr. Carlos de Farias no Canal Beto Ribeiro no YouTube em uma de suas participações ao vivo em fevereiro 2026, pode ser lida como uma hipótese teórica e clínica: as arquiteturas técnicas e econômicas das plataformas digitais amplificam e organizam processos psíquicos de comparação, desejo e hostilidade que, na linguagem psicanalítica, se articulam em torno da inveja.

 

1. Conceitos fundamentais: inveja na tradição psicanalítica


Melanie Klein: a inveja como pulsão destrutiva

Melanie Klein formulou a inveja como um afeto primário e profundamente ligado às primeiras relações objetais. Para Klein, a inveja nasce na relação do bebê com o seio nutritivo: é um sentimento de raiva dirigido ao objeto que possui algo desejado, acompanhado do impulso de “tirar” ou “deteriorar” aquilo que o outro tem. A inveja, nessa perspectiva, tem caráter destrutivo e está associada a fantasias de aniquilamento do objeto bom, dificultando a introjeção e a gratidão. Essa concepção permite pensar a inveja como uma força que corrói a capacidade de reconhecer o bem no outro e de internalizá‑lo como recurso psíquico.


Freud e as distinções entre inveja e ciúme

Sigmund Freud tratou de sentimentos próximos como ciúme e inveja em diferentes textos, situando‑os em contextos do desenvolvimento libidinal e das adversidades do narcisismo. Freud enfatiza a relação entre perda, luto e hostilidade, e mostra como mecanismos de projeção e deslocamento podem transformar desejos próprios em acusações contra o outro. A distinção entre inveja (direcionada ao objeto por aquilo que ele possui) e ciúme (triangular, envolvendo um terceiro) é útil para mapear as dinâmicas que emergem nas redes sociais, onde a comparação muitas vezes é unidirecional e pública.


Lacan: desejo do Outro e a mediação simbólica

Jacques Lacan desloca o foco para a estrutura do desejo: “o desejo do homem é o desejo do Outro”. Para Lacan, o que desejamos está sempre mediado pelo que supomos que o Outro deseja; o sujeito busca reconhecimento e orienta seu desejo a partir de imagens e valores que vêm do Outro simbólico. Nas redes sociais, essa mediação se torna literal: o Outro aparece como audiência, algoritmo e cultura de likes, e o sujeito orienta seus atos de exposição e consumo segundo aquilo que imagina que o Outro valoriza.

 

Teorias das relações objetais e Winnicott

Autores da tradição das relações objetais (Ronald Fairbairn, Donald Winnicott) enfatizam a importância do ambiente e da qualidade do holding para a formação do self. Winnicott, em particular, fala do “ambiente suficientemente bom” e do papel dos objetos transicionais na construção de um espaço intermediário entre o interno e o externo. Quando esse espaço é invadido por uma lógica de exposição e competição, a capacidade de brincar, de simbolizar e de tolerar frustrações pode ser comprometida, favorecendo respostas invejosas e persecutórias.

 

2. Por que as redes sociais favorecem a inveja: mecanismos técnicos e psíquicos

Curadoria seletiva e a estética do “melhor momento”

As redes sociais funcionam como vitrines curadas: usuários e influenciadores selecionam imagens e narrativas que destacam êxitos, prazeres e posses. Essa exposição seletiva cria um fluxo contínuo de objetos desejáveis que parecem estar sempre disponíveis para outros, mas não para o sujeito que observa. A comparação resultante tende a ativar sentimentos de insuficiência e desejo de posse, condições propícias à inveja. Estudos empíricos mostram que a exposição a conteúdos idealizados nas plataformas aumenta a frequência de comparações ascendentes e emoções invejosas.


Algoritmos como regentes da atenção

Os algoritmos priorizam conteúdos que geram engajamento: reações fortes, comentários, compartilhamentos. Conteúdos que evocam desejo, admiração ou ressentimento costumam gerar mais interação, e por isso são amplificados. Assim, a plataforma não é neutra: ela seleciona, repete e intensifica experiências afetivas, transformando estados psíquicos em métricas (curtidas, visualizações, tempo de tela). Essa retroalimentação técnica converte afetos em capital de atenção e reforça ciclos de comparação e frustração.


Economia da visibilidade e competição por reconhecimento

A visibilidade tornou‑se moeda social. O reconhecimento público (likes, seguidores, comentários) funciona como validação externa que alimenta o narcisismo e a dependência do olhar do Outro. Lacan ajuda a entender por que essa busca por reconhecimento pode gerar inveja: o sujeito deseja ser desejado pelo Outro e, ao ver o Outro valorizando objetos alheios, experimenta a frustração que se traduz em inveja. A competição por reconhecimento transforma relações humanas em disputas por posição simbólica.

 

Comparação em escala massiva e a erosão da singularidade

Na vida offline, comparações ocorrem em círculos limitados; nas redes, a comparação é global e contínua. A multiplicidade de objetos comparativos, corpos, viagens, bens, afetos, dilui a singularidade do sujeito e intensifica a sensação de falta. A inveja, nesse contexto, não é apenas um episódio isolado, mas um estado recorrente que pode corroer autoestima e capacidade de gratidão.

 

3. Leitura clínica: como a inveja nas redes reativa fantasias primitivas

 

Reativação de fantasias kleinianas

A exposição contínua a objetos “perfeitos” pode reativar fantasias primitivas descritas por Klein: o seio bom que é atacado pela inveja, a dificuldade de integrar o bom e o mau, e a intensificação de sentimentos persecutórios. Em termos clínicos, isso pode se manifestar como aumento de hostilidade, dificuldade em internalizar objetos bons e prejuízo à capacidade de gratidão e reparação. O sujeito pode reagir com desvalorização do outro (tentar “deteriorar” simbolicamente o objeto invejado) ou com retirada e depressão.

 

Formas contemporâneas de projeção e identificação

Mecanismos clássicos como projeção e identificação projetiva ganham novos contornos nas redes: o sujeito projeta no outro a posse de um bem ou status e, ao mesmo tempo, identifica‑se com imagens idealizadas que circulam. A dinâmica de “curtir” e “compartilhar” pode funcionar como uma forma de identificação coletiva, onde o sujeito busca se alinhar a imagens que prometem reconhecimento. Quando a identificação falha, a inveja pode se transformar em hostilidade ativa (comentários agressivos, campanhas de deslegitimação) ou em retirada narcisista.

 

Narcisismo, self e vulnerabilidade

Autores como Otto Kernberg e Heinz Kohut mostraram como a dependência de admiração externa e a fragilidade do self tornam o sujeito vulnerável a humilhações e invejas. Nas redes, a exposição pública aumenta a possibilidade de humilhação e de ataques, e a oscilação entre exaltação e desvalorização pública pode agravar fragilidades narcisistas. A clínica contemporânea observa pacientes que oscilam entre curadoria obsessiva de suas imagens e retraimento por medo da inveja alheia ou da própria inveja.

 

4. Dimensões sociais e políticas da inveja orquestrada

 

Polarização e economia afetiva

Quando plataformas monetizam atenção e polarizam conteúdos, a inveja pode ser instrumentalizada politicamente e comercialmente. Narrativas que exploram ressentimentos e comparações podem alimentar polarizações, mobilizando afetos invejosos contra grupos ou indivíduos. A inveja, nesse sentido, deixa de ser apenas um fenômeno intrapsíquico e torna‑se recurso de governança emocional e econômica.

 

Consumo, publicidade e a fabricação do desejo

A publicidade nas redes explora diretamente a comparação: anúncios e influenciadores apresentam estilos de vida que se tornam padrões de desejo. A distinção entre inveja benigna (impulso para melhorar) e maligna (desejo de destruir o objeto) é útil para pensar efeitos de mercado: campanhas que prometem ascensão social por consumo exploram a inveja como motor de compra. Pesquisas mostram que conteúdos de luxo e experiências compartilhadas tendem a provocar mais inveja e intenção de consumo.

 

Desigualdade simbólica e legitimação de privilégios

As redes podem naturalizar desigualdades ao tornar visíveis estilos de vida privilegiados como normativos. A inveja, então, atua como mecanismo que tanto reproduz a hierarquia simbólica quanto a questiona: alguns respondem com desejo de ascensão, outros com ressentimento e hostilidade. A análise psicanalítica ajuda a entender por que respostas emocionais a desigualdades nem sempre seguem a lógica racional da justiça social.

 



5. Intervenções clínicas, educativas e políticas

 

Na clínica psicanalítica

O trabalho analítico pode focar na elaboração das fantasias primitivas de inveja, na diferenciação entre desejo e inveja, e na construção de objetos internos menos persecutórios. Técnicas que favoreçam a simbolização, a capacidade de gratidão e a reparação são centrais. O setting analítico oferece um espaço onde o sujeito pode experimentar reconhecimento sem a lógica de visibilidade mercantilizada, permitindo a elaboração de sentimentos invejosos sem ação destrutiva.

 

Educação emocional e alfabetização midiática

Programas que ensinem a ler criticamente as plataformas, a reconhecer mecanismos de curadoria e a distinguir inveja benigna de maligna podem reduzir danos. A alfabetização emocional inclui práticas de regulação afetiva, promoção de gratidão e exercícios de comparação saudável (foco em metas pessoais em vez de padrões externos). Intervenções em escolas e comunidades podem mitigar efeitos coletivos da exposição contínua.

 

Regulação das plataformas e design ético

Políticas públicas e iniciativas de design que reduzam a amplificação de conteúdos que exploram inseguranças e que priorizem bem‑estar em vez de engajamento podem alterar a “orquestração” da inveja. Isso inclui transparência algorítmica, limites à monetização de atenção e ferramentas que promovam pausas e reflexividade. A mudança técnica é necessária para complementar intervenções clínicas e educativas.

 

6. Conclusão

A  frase “As redes sociais são orquestradas pela inveja” à luz da psicanálise não significa reduzir todo o fenômeno a um único afeto, mas reconhecer que as plataformas tecnológicas criam condições técnicas, econômicas e simbólicas que favorecem a emergência, a repetição e a intensificação de processos invejosos. A teoria kleiniana oferece um quadro potente para entender a dimensão destrutiva da inveja; Lacan ilumina a mediação do desejo pelo Outro; Winnicott e a tradição das relações objetais lembram a importância do ambiente e do espaço intermediário. Estudos contemporâneos sobre redes e emoções confirmam empiricamente que a exposição digital aumenta comparações e invejas, com consequências clínicas e sociais significativas. Intervir exige, portanto, uma combinação de trabalho psicanalítico, educação emocional e mudanças no design e na regulação das plataformas.

 

Bibliografia selecionada

Clássicos e obras fundamentais

  • Klein, Melanie. Envy and Gratitude and Other Works 1946–1963. London: The Hogarth Press, 1984.
  • Freud, Sigmund. “On Some Neurotic Mechanisms in Jealousy, Paranoia and Homosexuality.” (1922).
  • Lacan, Jacques. Écrits; Seminar XI: The Four Fundamental Concepts of Psychoanalysis. Paris: Seuil; traduções e edições diversas.
  • Winnicott, D. W. Playing and Reality. London: Tavistock, 1971.
  • Fairbairn, W. R. D. Psychoanalytic Studies of the Personality. London: Routledge, 1952.
  • Kernberg, Otto F. Borderline Conditions and Pathological Narcissism. New York: Jason Aronson, 1975.

Textos e estudos contemporâneos sobre redes sociais e inveja

  • Liu, Dege; He, Bin; Feng, Ruan; Huang, Xiaojun; Liu, Gaoqiang. “How social media sharing drives consumption intention: the role of social media envy and social comparison orientation.” BMC Psychology, 2024.
  • Wang, T.; Mai, X. T.; Thai, T. D.-H. “Approach or avoid? The dualistic effects of envy on social media users’ behavioral intention.” International Journal of Information Management, 2021.
  • Artigos e resenhas sobre inveja kleinianas e relações objetais: entradas e sínteses em repositórios e dicionários de pensamento kleiniano.

 

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