Por Que a Intimidade Parece Ser Mais Forte Com a Pessoa Errada

 


A intimidade pode ser incrivelmente potente e estimulante com pessoas que podem ser consideradas inadequadas por uma variedade de razões psicológicas, emocionais e sociais complexas.

Esse sentimento intenso geralmente decorre de uma combinação de histórias pessoais não resolvidas, do fascínio pelo proibido e das necessidades emocionais específicas que esses parceiros "errados" parecem suprir, mesmo que apenas temporariamente.

Compreender essas dinâmicas é um passo crucial na inteligência relacional, permitindo diferenciar entre uma história de amor passageira, embora poderosa, e uma história de vida sustentável, que requer valores compartilhados e a capacidade de navegar juntos pelas complexidades da vida.

Quando uma pessoa sente uma forte sensação de intimidade com alguém “errado”, pode ser porque a dinâmica explora essas necessidades emocionais profundas que advêm de histórias pessoais, particularmente da infância.

 

Recriando Dinâmicas Familiares

Frequentemente, acontece a atração por parceiros que permitem recriar paisagens emocionais familiares do passado. Existem apenas dois relacionamentos que realmente se espelham: aquele com nossos cuidadores principais (pais ou pessoas que supriram ausência parental) e aquele com nossos parceiros românticos. Muitas vezes, inconscientemente, escolhe-se parceiros que se assemelham aos pais ou cuidadores, criando uma dinâmica que parece familiar, mesmo que tenha sido dolorosa.

Isso pode levar ao que é conhecido como compulsão à repetição, uma tentativa inconsciente de resolver conflitos centrais que surgiram durante os primeiros afetos. Se uma pessoa cresceu com um pai emocionalmente indisponível ou rejeitável, ela pode inconscientemente procurar parceiros que reflitam esse padrão. A sensação familiar de se esforçar para conquistar o amor torna-se seu "centro de gravidade" psicológico nos relacionamentos.

O papel de  "salvador(a)": Observando que tal papel é, em sua maioria, desempenhado mais por mulheres, algumas pessoas são atraídas por "projetos": parceiros com problemas significativos, como vício ou questões emocionais. Esse papel de “salvador(a)” proporciona um senso de significância e propósito: “Se eu posso ser a razão da mudança dessa pessoa, então eu sou digno(a)”.

Essa dinâmica, no entanto, impede a verdadeira intimidade emocional, pois estabelece uma dinâmica desigual de poder entre “salvador e paciente”, em vez de uma parceria entre iguais.

 

Terceirizando Necessidades

Muitas vezes, uma pessoa é atraída por outra que expressa aspectos de si mesma com os quais ela não quer lidar diretamente. Por exemplo, uma pessoa que teme perder sua independência pode se sentir atraída por um parceiro que busca ativamente conexão, terceirizando assim sua própria necessidade de proximidade. Essa dinâmica pode parecer intensamente atraente porque a outra pessoa parece nos completar, incorporando as mesmas qualidades que almejamos, mas que rejeitamos em nós mesmos.

 

Complicação Emocional e Falta de Limites

Às vezes, o que parece uma intimidade intensa é, na verdade, uma complicação emocional, onde os limites não são muito bem estabelecidos ou não são estabelecidos, e as pessoas envolvidas se tornam excessivamente co-dependentes, buscando validação emocional e identidade.

Aparenta ser um bom relacionamento afetivo porque cria uma sensação de conexão e validação constantes, mas sacrifica o crescimento pessoal e a autonomia. Um relacionamento complicado emocionalmente em geral começa em uma "fase de lua de mel" ou uma "névoa amorosa" que parece inebriante, mas que é, verdadeiramente, uma visão imatura da intimidade.

A pessoa pode se sentir atraído por dinâmicas que, embora prejudiciais, parecem familiares ou proporcionam um aumento temporário à sua autoestima.

 

Baixa Autoestima e Validação

Um dos principais motivos para esse padrão é a baixa autoestima. Quando uma pessoa não se sente digna de amor, muitas vezes sente repulsa por aqueles que estão prontamente disponíveis e interessados ​​nela, pensando inconscientemente: "O que há de errado com ela para que ela se interesse por mim?". Em vez disso, ela se sente atraída pelo desafio de conquistar alguém que não está disponível. A busca se torna uma busca egocêntrica por validação; se ela conseguir que essa pessoa a ame, isso prova seu valor.

 

Familiaridade Confundida com Química

Muitas vezes, as pessoas são instintivamente atraídos pelo que é familiar, mesmo que essa familiaridade não seja saudável. Se alguém cresceu em um ambiente caótico ou com cuidadores emocionalmente indisponíveis, pode inconscientemente procurar parceiros que reproduzam essa dinâmica.

A turbulência resultante pode ser confundida com paixão ou química intensa, pois ressoa com feridas emocionais antigas e não resolvidas. Essa "faísca" costuma ser o inconsciente tentando completar um padrão inacabado do passado, buscando finalmente "conquistar" um amor que antes foi negado. Uma química intensa e "descontrolada" pode ser perigosa, pois turva o julgamento e faz com que a pessoa ignore sinais de alerta significativos.

 

A Emoção da Conquista

A sensação de conquistar o amor de alguém pode ser altamente viciante. Uma pessoa emocionalmente indisponível cria uma dinâmica em que o outro está constantemente tentando conquistá-la, o que pode parecer um excitante drama romântico. Esse processo de conquista pode criar um intenso sentimento de atração que muitas vezes é confundido com uma conexão profunda, quando na realidade é um padrão enraizado na baixa autoestima e na necessidade de se provar algo.

A indisponibilidade de um parceiro pode fazê-lo parecer mais valioso devido a uma mentalidade de escassez, tornando os momentos de conexão eufóricos e intensamente gratificantes.

 

Caos e Drama Que Parecem Paixão

Alguns relacionamentos são alimentados por um ciclo de términos e reconciliações, criando altos e baixos que podem ser viciantes.

Relacionamentos saudáveis ​​podem, às vezes, parecer chatos em comparação, porque não têm essa volatilidade. A teoria da "confusão da excitação" sugere que o estado fisiológico exacerbado pelo conflito, aumento da frequência cardíaca, pupilas dilatadas, pode refletir a excitação sexual, fazendo com que o sexo tempestuoso pareça intensamente apaixonado. Algumas pessoas se tornam viciadas na emoção desses altos e baixos.

Paixão não é amor (mas pode enganar): a paixão é uma experiência química primitiva que pode parecer incrivelmente poderosa e viva. Ela costuma acontecer no início de um relacionamento, quando os hormônios estão em alta e tudo parece novo e emocionante. No entanto, essa intensa "fase de lua de mel" não é o mesmo que o amor duradouro, que é uma escolha e uma prática construída com base em diferentes qualidades, como amizade, confiança e valores compartilhados.

 

Atração Que Engana

A  atração instantânea muitas vezes é superestimada. Esse sentimento pode ser gerado por pessoas simplesmente carismáticas ou até mesmo narcisistas, que transmitem a todos a mesma sensação intensa sem que isso signifique uma conexão única com alguém.  A atração duradoura geralmente aumenta com o tempo, à medida que se conhece o caráter de uma pessoa. O que se confunde com conexão geralmente é carisma, projeção ou fantasia.

 

Paixão Por Uma Fantasia

No início do namoro, muitas vezes uma pessoa projeta suas fantasias idealizadas em uma pessoa que mal conhece. Os sentimentos intensos de conexão costumam ser com essa versão imaginada da pessoa, não com o indivíduo real. E isso é particularmente verdadeiro em situações em que a falta de comprometimento real permite que a fantasia continue viva, sem ser desafiada pelas realidades de um relacionamento de longo prazo. Isso ocorre porque o relacionamento existe em uma bolha, separado das responsabilidades e trivialidades da vida cotidiana.

A fantasia do que poderia ser, livre da realidade, cria uma poderosa sensação de conexão e excitação que pode parecer mais real e íntima do que um relacionamento baseado na vida cotidiana.

 

O Apelo do "Bad Boy"

Algumas mulheres são atraídas pela confiança e assertividade frequentemente projetadas por "bad boys", em geral pessoas com perfil narcisista. Essa confiança faz com que a mulher se sinta segura e pode ser muito atraente, mesmo que seja uma fachada que mascara inseguranças mais profundas. Pode haver um "conforto na disfunção", pois o mau comportamento é esperado, eliminando a ansiedade de procurar falhas que possam existir em um "cara legal".

 


A Carga Erótica de se Quebrar Regras

Há algo inerentemente erótico no proibido. Casos e relacionamentos secretos costumam ser eletrizantes, não porque a conexão seja profunda, mas porque são permeados de risco, novidade e fuga. Um caso extraconjugal costuma ter menos a ver com a outra pessoa e mais com a versão de si mesmo que você consegue ser na presença dela. Relacionamentos secretos tendem a ser supercarregados porque a excitação é alimentada pela emoção de algo estar escondido ou ser "divertido", em vez da saúde da conexão em si. Para a pessoa que está tendo o caso, ela frequentemente busca uma versão diferente de si mesma, um eu que se sente perdido em seu relacionamento principal, e essa busca por um "novo eu" pode ser estimulante. Para algumas pessoas, a experiência de amar está ligada à busca por alguém indisponível.

Esse padrão pode começar na infância, com paixões por pessoas que nunca seriam capazes de retribuir esses sentimentos, tornando a própria busca a fonte de excitação. O desejo e a fantasia envolvidos em querer o que não se pode ter podem criar uma poderosa sensação de vivacidade, que é confundida com profunda intimidade e amor.

 

Na psicanálise freudiana, o desejo não é guiado pela razão, mas pela pulsão , uma força que busca satisfação, muitas vezes à revelia da moral, da lógica ou da segurança. A “pessoa errada” é, na verdade, aquela que encarnam o interdito, o risco, o excesso. E é justamente aí que reside o fascínio.

“O que o sujeito deseja não é o objeto em si, mas o que nele representa a perda, a falta, o impossível.” Jacques Lacan

A intimidade com o “errado” é boa porque toca o Real, aquilo que escapa à simbolização, que não pode ser plenamente dito ou domesticado. É uma experiência que fura o tecido da norma, do cotidiano, e nos coloca diante do que há de mais cru em nós: o desejo sem censura.

Freud distingue prazer de gozo. O prazer é regulado pelo princípio do prazer, uma busca de satisfação e fuga do desprazer. Já o gozo, conceito ampliado por Lacan, é aquilo que excede o prazer, que pode até causar dor, mas que é vivido como intensamente verdadeiro.

A pessoa errada pode oferecer esse tipo de experiência: não é segura, mas é  intensa. Não é confiável, mas é irresistível. Ela se coloca em contato com zonas psíquicas que normalmente são evitadas: o desamparo, a ambivalência, o desejo de fusão e destruição.

A intimidade com o “errado” também revela algo sobre o sujeito que, segundo Freud, é dividido entre o que sabe e o que não quer saber. As escolhas afetivas “erradas” muitas vezes são repetições inconscientes de padrões infantis, traumas não elaborados, ou fantasias recalcadas.

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem.” — Jacques Lacan

Nesse sentido, a pessoa errada fala a língua do inconsciente. Ela ativa fantasmas, encena dramas internos, e obriga a confrontar aquilo que se tenta manter oculto. A intimidade se torna boa porque é familiar, não no sentido de confortável, mas de repetição psíquica.

A psicanálise ensina que o desejo não é moral. Ele não busca o bem, busca o objeto perdido, o gozo, o excesso. Por isso, a intimidade com as pessoas erradas parece ser tão boa: porque ela leva para além da superfície, para o núcleo pulsional da experiência humana. É boa porque é perigosa. Porque  desestabiliza. Porque revela.

 

 

 

 

 

 


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