O filme Milagre em Manhattan (Miracle on 34th Street) e a Psicanálise: Um Ensaio
Introdução
O filme Miracle on 34th Street (Milagre em
Manhattan) pode ser interpretado pela psicanálise como uma narrativa sobre
crença, desejo e a função simbólica do Papai Noel.
O cinema, desde suas origens, tem servido como espelho das
fantasias, desejos e conflitos humanos. Miracle on 34th Street (Milagre
em Manhattan), lançado em 1994 sob direção de Les Mayfield e roteiro de
John Hughes, é um remake do clássico de 1947. Mais do que uma história
natalina, o filme apresenta uma trama rica em símbolos que podem ser analisados
sob a ótica da psicanálise.
O elenco conta com Richard Attenborough como Kris
Kringle, Elizabeth Perkins como Dorey Walker, Mara Wilson como
Susan Walker, Dylan McDermott como Bryan Bedford, além de Robert
Prosky como o juiz Harper. Cada personagem encarna dimensões psíquicas que
dialogam com conceitos de Freud, Jung, Winnicott, Lacan e autores modernos.
O enredo e seus símbolos
A narrativa gira em torno de Kris Kringle, um idoso que
afirma ser o verdadeiro Papai Noel. Contratado por uma loja de departamentos,
ele conquista crianças e adultos com sua generosidade e autenticidade. Contudo,
sua crença é posta em xeque quando rivais corporativos tentam desacreditá-lo,
levando-o a julgamento.
Paralelamente, a pequena Susan, criada por sua mãe Dorey em
um ambiente racional e cético, aprende a acreditar novamente graças à
influência de Kris. Bryan, vizinho e advogado, representa a ponte entre o mundo
pragmático e o mundo da fantasia.
A ótica freudiana
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, destacou a
importância do desejo infantil e da função paterna.
- Susan
Walker (Mara Wilson): A menina simboliza o conflito entre o princípio da realidade e o
princípio do prazer. Educada para não acreditar em fantasias, ela reprime
o desejo de magia. Kris, como figura paterna simbólica, reintroduz o
espaço do imaginário.
- Dorey
Walker (Elizabeth Perkins): A mãe representa a racionalidade e a defesa contra a
ilusão. Freud diria que ela encarna o superego, tentando proteger a filha
de frustrações.
- Kris
Kringle (Richard Attenborough): Ele é a figura do “pai idealizado”, que devolve à
criança a possibilidade de sonhar. Sua função é semelhante à do “pai
simbólico” em Lacan: garante a lei, mas também abre espaço para o desejo.
O julgamento de Kris pode ser visto como metáfora do conflito
entre o inconsciente coletivo que deseja acreditar e a racionalidade social
que exige provas.
A perspectiva junguiana
Carl Gustav Jung enfatizou os arquétipos e o
inconsciente coletivo.
- Kris
Kringle é o arquétipo do Velho Sábio, portador da verdade e da
esperança.
- Susan
encarna o arquétipo da criança divina, cuja pureza e desejo de
acreditar renovam o mundo adulto.
- Dorey
representa a Mãe protetora, mas também a mãe que teme o engano.
- Bryan
é o herói cotidiano, que defende Kris e ajuda Susan a integrar
fantasia e realidade.
O Natal, como celebração, é um rito de passagem que Jung
veria como manifestação do arquétipo da renovação, simbolizando a
esperança de um novo ciclo.
Winnicott e o espaço transicional
Donald Winnicott introduziu o conceito de objeto
transicional e do espaço potencial entre realidade e fantasia.
- Para
Susan, acreditar em Kris é como brincar com um objeto transicional: não
importa se ele é “real” ou não, o importante é a experiência subjetiva que
dá segurança e esperança.
- Kris
oferece esse espaço transicional, permitindo que a criança experimente a
ilusão sem perder contato com a realidade.
- O
filme mostra que o brincar e o acreditar são fundamentais para o
desenvolvimento emocional saudável.
Lacan e o desejo
Jacques Lacan destacou que o sujeito é estruturado pelo
desejo e pela linguagem.
- Susan
deseja uma família completa, uma casa e um irmãozinho. Esse desejo é
articulado simbolicamente através de Kris.
- Kris
funciona como o “Nome-do-Pai”, introduzindo a lei e o limite, mas também
sustentando o desejo.
- O
tribunal, onde se decide se Kris é ou não Papai Noel, é metáfora da luta
entre o simbólico e o imaginário.
Autores contemporâneos
Autores modernos como Julia Kristeva e Christopher
Bollas ampliaram a psicanálise para o campo cultural.
- Kristeva
falaria da importância da crença como elemento de sublimação: a
fantasia natalina transforma angústias em esperança.
- Bollas
destacaria Kris como um “objeto transformacional”, que muda a vida das
pessoas ao oferecer uma experiência emocional única.
Personagens e funções psíquicas
|
Personagem |
Ator |
Função Psíquica |
|
Kris Kringle |
Richard Attenborough |
Pai simbólico, Velho Sábio, objeto transformacional |
|
Susan Walker |
Mara Wilson |
Criança divina, desejo reprimido, espaço transicional |
|
Dorey Walker |
Elizabeth Perkins |
Superego, mãe protetora, racionalidade |
|
Bryan Bedford |
Dylan McDermott |
Herói cotidiano, mediador entre fantasia e realidade |
|
Juiz Harper |
Robert Prosky |
Função da lei, superego social |
A mensagem do filme
Sob a ótica psicanalítica, Milagre em Manhattan mostra
que a crença não é apenas ingenuidade, mas uma necessidade psíquica. A
fantasia natalina permite que crianças e adultos mantenham viva a esperança,
elemento essencial para enfrentar a dureza da realidade.
O filme ensina que o equilíbrio entre razão e imaginação é
fundamental. Dorey aprende a abrir espaço para o desejo da filha; Susan
descobre que acreditar pode transformar sua vida; Bryan mostra que o amor é
ponte entre mundos; e Kris revela que o verdadeiro milagre é a capacidade
humana de sonhar.
Ao final, Milagre em Manhattan nos lembra que, mesmo
em tempos de descrença, a esperança é um ato revolucionário. A
psicanálise mostra que o desejo e a fantasia são motores da vida psíquica.
Permitir-se acreditar, seja em Papai Noel, em um futuro melhor ou em nossos
próprios sonhos, é essencial para manter a saúde emocional.
Assim, a mensagem positiva é clara: não importa a idade,
sempre podemos resgatar a criança interior que acredita em milagres. Essa
crença nos fortalece, nos humaniza e nos conecta uns aos outros. O
verdadeiro milagre não está em provas jurídicas ou em presentes materiais, mas
na capacidade de manter viva a chama da esperança.
Natal 2025
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