Feminicídio no Brasil: A Violência que Não Suporta o “Não”
Introdução
O Brasil enfrenta uma escalada alarmante de feminicídios, com
mais de mil casos registrados apenas em 2025, apesar do endurecimento das leis. Este artigo analisa o fenômeno sob o
viés psicanalítico, articulando autores clássicos e contemporâneos, e apontando medidas para autoridades de segurança pública, Judiciário e
Congresso, sempre dentro da ótica da psicanálise.
O feminicídio, tipificado como crime hediondo no Brasil desde
2015, deveria representar um marco no combate à violência contra a mulher. No
entanto, os números mostram uma realidade devastadora: em 2024 foram 1.492
casos registrados, e em 2025 já ultrapassamos a marca de mil feminicídios até
setembro, com mais de 2,7 mil tentativas. Isso significa que, em média, quatro
mulheres são assassinadas por dia no país.
Apesar do endurecimento das penas, que podem chegar a 40 anos
de prisão em casos agravados, a violência não diminui. A explicação não pode
ser apenas jurídica ou policial. É preciso compreender o fenômeno como
expressão de uma sociedade que, em larga medida, não suporta ser
contrariada, não aceita o “não” como resposta e recorre à violência como forma
de reafirmação narcísica e de poder.
A psicanálise, desde Freud até autores contemporâneos como
André Green, Jean Laplanche, Thomas Ogden e Christopher Bollas, oferece
ferramentas para compreender a lógica inconsciente que sustenta essa violência.
O Feminicídio como Sintoma Social
Sigmund Freud (1856-1939), nascido na atual República Tcheca, e reconhecido
como o fundador da psicanálise, tendo desenvolvido conceitos como o inconsciente, o complexo
de Édipo e a técnica da associação livre, já apontava que a agressividade é
constitutiva da vida psíquica (O Mal-Estar na Civilização, 1930). Já
o francês Jacques Lacan (1901-1981) que renovou a psicanálise a partir
da década de 1950, articulando-a com a linguística e o estruturalismo, além de
propor conceitos como o estádio do espelho (conceito fundamental na
teoria de Lacan sobre a formação do eu, descrevendo o momento em que o bebê
(entre 6 e 18 meses) se reconhece em uma imagem no espelho, formando uma ilusão
de totalidade e identidade, uma experiência crucial para a constituição do
sujeito) e o objeto a., mostrou que o sujeito se constitui em
relação ao desejo do outro e que a recusa do objeto pode desencadear reações
violentas. No feminicídio, vemos a atualização dessa dinâmica: o homem que
não suporta a recusa da mulher, que não aceita o fim da relação ou a autonomia
feminina, responde com a destruição do objeto de desejo.
Autores contemporâneos ampliam essa leitura:
- Jean
Louis Laplanche (1924–2012), psicanalista francês, fala das mensagens enigmáticas
do outro, que podem ser vividas como ameaças.
- André
Green (1927–2012),
nascido no Cairo, radicado na França, médico psiquiatra e psicanalista,
destaca o “discurso morto”, em que o vazio e a impossibilidade de
simbolizar levam à violência.
- Thomas
H. Ogden (1946–), psicanalista norte-americano, enfatiza o campo intersubjetivo,
mostrando que a violência emerge da incapacidade de habitar a diferença.
- Christopher
Bollas (1943–), psicanalista
britânico nascido nos EUA, introduz o “objeto transformacional”: quando o
sujeito não encontra transformação, recorre à destruição.
Dados da Epidemia de Violência
- 2024: 1.492 feminicídios, recorde
desde a tipificação em 2015.
- 2025: mais de 1.075 mulheres mortas
até setembro; 2,7 mil tentativas registradas.
- São
Paulo: 53 casos
na capital até outubro de 2025, maior número da série histórica.
- Taxa
nacional: 4,8
feminicídios por 100 mil mulheres, quinta maior do mundo.
Esses números revelam que o endurecimento das leis não tem
sido suficiente. A violência é estrutural, cultural e psíquica.
A Sociedade que Não Suporta o “Não”
A psicanálise ajuda a compreender por que o “não” é tão
intolerável. Freud descreveu o narcisismo como uma estrutura que não admite
frustração. Lacan mostrou que o desejo é sempre desejo do outro, e que a recusa
pode ser vivida como castração insuportável.
Na cultura brasileira, marcada por séculos de patriarcado e
pela legitimação da “defesa da honra”, o “não” da mulher é interpretado como
afronta. O feminicídio é, portanto, a tentativa de eliminar o sujeito que
ousa dizer não, reafirmando violentamente a fantasia de posse e controle.
O Papel das Autoridades
Apesar das leis, há falhas graves na aplicação:
- Judiciário: ainda lento e por vezes
leniente, permitindo que agressores reincidam.
- Segurança
pública: cortes
de verbas e falta de integração entre políticas de proteção.
- Congresso: aprova leis mais duras, mas não
garante financiamento para políticas preventivas.
Maria da Penha, em entrevista recente, destacou que os atos
contra feminicídio são “gritos de socorro para que a lei seja cumprida”.
Soluções sob a ótica psicanalítica
- Educação
desde a infância: trabalhar a aceitação da diferença e do “não” como parte da vida.
- Formação
de autoridades:
juízes, policiais e parlamentares devem compreender que o feminicídio não
é apenas crime, mas sintoma social.
- Acolhimento
das vítimas:
políticas integradas que ofereçam proteção, renda e suporte psicológico.
- Regulação
das redes sociais: combater discursos misóginos e movimentos digitais como o “red
pill”, que radicalizam jovens.
- Pacto
de Estado:
inspirado na Espanha, que reduziu feminicídios em 30% com políticas
integradas.
- Trabalho
clínico:
analistas devem ajudar sujeitos a simbolizar a perda e a frustração,
evitando que o “não” se transforme em violência.
Conclusão
O feminicídio no Brasil é epidemia secular. Não basta
endurecer leis; é preciso transformar a cultura e o inconsciente coletivo. A
psicanálise mostra que a violência emerge da incapacidade de suportar a
frustração e a diferença.
Autoridades de segurança pública, Judiciário e Congresso
devem ir além da punição: investir em prevenção, educação e acolhimento.
Só assim será possível reduzir o número de mulheres assassinadas por serem
mulheres.
O trajeto da análise psicanalítica ensina que o sujeito só se
transforma quando consegue simbolizar a perda. O Brasil precisa aprender a
simbolizar o “não” e a aceitar que a
vida das mulheres não é objeto de posse, mas de respeito.
Referências Bibliográficas
- Freud,
S. (1930). O Mal-Estar na Civilização.
- Lacan,
J. (1960-1961). Seminário VIII: A Transferência.
- Green,
A. (1999). O Discurso Vivo.
- Laplanche,
J. (1992). Novos Fundamentos para a Psicanálise.
- Ogden, T. (1994). Subjects of
Analysis.
- Bollas, C. (1987). The Shadow
of the Object.
- Instituto Maria da Penha
- Brasil Escola
- História do Mundo
- Dados atualizados: G1, O Globo, Valor Econômico, Agência Brasil, CNN Brasil, Veja.
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