Clássicos do Cinema: ‘Freud Além da Alma’ e os Processos de Resistência, Transferência e Contratransferência




O encontro entre a teoria psicanalítica e sua representação cinematográfica abre um campo fértil para pensar como os processos clínicos centrais — resistência, transferência e contratransferência — se manifestam, se dramatizam e se transformam em material simbólico para o público. O filme ‘Freud Além da Alma’ (Freud: The Secret Passion, 1962), dirigido por John Huston, propõe uma narrativa ficcionalizada da emergência da psicanálise e constrói episódios clínicos que iluminam e, por vezes, simplificam a prática analítica. Ao articular os conceitos teóricos com a análise do filme, este artigo também integra os personagens e os intérpretes principais, conectando a leitura das sequências ao trabalho performativo do elenco.

 

Resistência: definição, funções e representações no filme

Na teoria freudiana, resistência é o conjunto de operações psíquicas que impedem a emergência de conteúdos recalcados à consciência; na clínica, manifesta-se como esquecimento, silêncio, desvio, procrastinação, sintomas e atos. O filme materializa essas formas de maneira dramática: silêncios prolongados, esquecimentos decisivos e comportamentos autossabotadores aparecem como índices palpáveis de uma defesa que protege e aprisiona simultaneamente. A representação cinematográfica cristaliza esses momentos para efeito pedagógico, mostrando a resistência tanto como obstáculo quanto como pista para a interpretação.

Autores contemporâneos como Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis lembram que a resistência não é apenas uma barreira, mas também um sinal da presença do inconsciente. Já André Green enfatiza que a resistência pode se manifestar como “negatividade” ou “desobjetalização”, isto é, como um vazio que desafia o analista a sustentar o enquadre sem preencher precipitadamente o silêncio. O filme dramatiza esse aspecto ao mostrar pacientes que se refugiam no “nada”, convocando Freud a lidar com o vazio como material clínico.

Jean Roussillon acrescenta que a resistência é inseparável da transferência: o que se repete no vínculo é também o que resiste à elaboração. Essa dialética aparece no filme quando os pacientes oscilam entre aproximação e recusa, revelando que a resistência é motor e obstáculo ao mesmo tempo.

 

Transferência: natureza, variações e função motora na narrativa

A transferência aparece no filme como o recurso central que torna a clínica dramatizável: pacientes projetam sobre Freud afetos, expectativas e papéis que pertencem a figuras significativas de suas histórias. A tela expõe diferentes tonalidades transferenciais (idealização, hostilidade, erotização e ódio), mostrando como esses investimentos tornam o relacionamento com o analista o cenário privilegiado para o inconsciente se manifestar no presente.

Contribuições de Laplanche & Pontalis

Laplanche e Pontalis sublinham que a transferência não é apenas repetição mecânica de vínculos passados, mas uma atualização do inconsciente na relação analítica. Para eles, a transferência é o “campo privilegiado” onde se revelam os desejos inconscientes, e sua interpretação é condição para que o processo analítico avance. Essa perspectiva amplia a leitura cinematográfica: os close-ups e silêncios do filme não apenas ilustram projeções, mas dramatizam a irrupção do inconsciente no vínculo, tornando visível o que, na clínica, é vivido de forma mais sutil.

Autores modernos

  • Thomas Ogden destaca que a transferência deve ser entendida como parte de um “campo analítico” compartilhado, em que paciente e analista cocriam uma experiência emocional.
  • Antonino Ferro acrescenta que a transferência é também narrativa: os pacientes contam histórias que, ao serem escutadas e interpretadas, transformam-se em novas formas de simbolização.
  • Jessica Benjamin enfatiza a intersubjetividade, lembrando que a transferência não é unilateral, mas envolve negociação de limites e reconhecimento mútuo.

 

Contratransferência: a figura do analista e suas implicações

O filme humaniza Freud, revelando-o como sujeito passível de contratransferências e dúvidas. As reações emocionais do analista (compaixão excessiva, raiva e busca de reconhecimento) aparecem como forças que podem comprometer o trabalho se não forem elaboradas. Montgomery Clift encarna essa falibilidade, o que permite ao filme problematizar a idealização do analista e destacar a condição técnica e ética da supervisão e da autoanálise.

Contribuições de Rodolfo Mario Etchegoyen

Etchegoyen enfatiza que a contratransferência não deve ser vista apenas como obstáculo, mas como instrumento clínico fundamental. Para ele, os afetos despertados no analista são parte do campo transferencial e, quando reconhecidos e trabalhados, tornam-se material valioso para compreender o paciente. Essa visão dialoga diretamente com a representação cinematográfica: as hesitações e emoções de Freud no filme não são apenas falhas, mas ilustram como o analista é convocado a elaborar sua própria resposta afetiva para que o processo terapêutico se mantenha ético e produtivo.

Autores modernos

  • Heinz Kohut já havia apontado que a contratransferência pode ser usada para compreender as necessidades narcísicas do paciente.
  • René Roussillon insiste que o analista deve reconhecer sua própria implicação subjetiva, pois é nesse espaço compartilhado que se produz a transformação.
  • Thomas Ogden fala da “contratransferência projetiva”, em que o analista sente em si afetos que pertencem ao paciente, mas que só podem ser compreendidos se forem elaborados.
  • André Green alerta para o risco da “contratransferência negativa”, quando o analista rejeita ou se defende excessivamente, bloqueando o processo.

 


Personagens centrais, intérpretes e funções dramáticas

  • Sigmund Freud — Montgomery Clift
    A performance de Clift constrói Freud como sujeito dividido entre racionalidade científica e envolvimento afetivo. Sua figura funciona como foco das projeções dos demais personagens e como agente das interpretações que movem a narrativa.
  • Personagens femininas — Susannah York e elenco de apoio
    As personagens femininas dramatizam a erotização do vínculo analítico e as dificuldades éticas do analista diante de solicitações que atravessam os limites do setting. Aqui ecoa a reflexão de Jessica Benjamin, que sublinha a importância da intersubjetividade e da negociação de limites no vínculo analítico.
  • Pacientes e coadjuvantes
    Representam sintomas e estilos de resistência: histerias, atos falhos, silêncios e comportamentos autopunitivos. Esses personagens funcionam como “tipos clínicos” que ilustram a diversidade das defesas psíquicas.
  • Discípulos, colegas e o contexto social
    Encarnam resistências externas à inovação teórica, mostrando que não apenas o aparelho psíquico, mas também a cultura e as instituições resistem às rupturas paradigmáticas. Essa dimensão social da resistência é retomada por autores contemporâneos como Elisabeth Roudinesco, que enfatiza a relação entre psicanálise e cultura.

 

Potência heurística e limitações da representação cinematográfica

O cinema simplifica, mas também ilumina. Ao concentrar momentos clínicos emblemáticos, o filme oferece imagens potentes para formação e reflexão; ao mesmo tempo, corre o risco de mitificar descobertas pessoais e reduzir processos longos a epifanias narrativas. A glorificação do pioneiro científico e a ênfase em cenas radicais podem criar falsas expectativas de solução rápida e individualizada.

Autores modernos como Christopher Bollas lembram que a clínica é feita de micro processos, de pequenas transformações que raramente se traduzem em epifanias cinematográficas. O filme, ao condensar processos, corre o risco de criar uma visão heroica e simplificada, mas também oferece material simbólico para pensar a complexidade da prática.

 

Implicações contemporâneas: ética do enquadre, contratransferência e cultura

O filme destaca aspectos éticos que permanecem centrais: a manutenção do enquadre como intervenção silenciosa, o manejo da contratransferência como material clínico a ser trabalhado em supervisão, e a necessidade de sensibilidade cultural ao interpretar experiências de sofrimento. A recepção cinematográfica também instaura uma transferência coletiva: o público projeta sobre a figura de Freud afetos de admiração ou rejeição que reproduzem os processos observados no setting analítico.

Integrando as reflexões de Laplanche, Pontalis e Etchegoyen, o filme pode ser lido como laboratório simbólico que dramatiza não apenas a resistência e a transferência, mas também a contratransferência como espaço de elaboração. Essa leitura crítica reforça que interpretar o que resiste e trabalhar o que se repete no vínculo exige técnica, ética, humildade e uma escuta capaz de acolher o enigma antes de reduzi-lo a explicação. Em tempos contemporâneos, em que a psicanálise dialoga com múltiplas culturas e linguagens, o cinema se torna um recurso privilegiado para pensar a clínica em sua dimensão simbólica e intersubjetiva. ‘Freud Além da Alma’, mesmo com suas licenças dramáticas, continua a oferecer imagens potentes para formação e reflexão, lembrando que o trabalho analítico é sempre um processo lento, complexo e profundamente humano, sustentado pela delicada articulação entre resistência, transferência e contratransferência.


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