Clássicos do Cinema: Gone Girl (Garota Exemplar): Uma Anatomia da Mente e do Crime

 


Lançado em 2014 e dirigido por David Fincher, Gone Girl (Garota Exemplar) é uma adaptação do romance homônimo de Gillian Flynn, que também assina o roteiro. O filme mergulha o espectador em um thriller psicológico e policial, explorando as complexidades do casamento, da identidade e da manipulação midiática. A narrativa gira em torno do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) e da subsequente suspeita que recai sobre seu marido, Nick Dunne (Ben Affleck).

Mais do que um suspense, Gone Girl (Garota Exemplar) é uma obra que permite uma leitura profunda sob os prismas da psicanálise e da criminologia. A seguir, vamos encontrar os personagens centrais, suas motivações inconscientes, os traços de perversão e narcisismo, e os elementos criminológicos que permeiam a trama.

Personagens Principais e Seus Intérpretes

  • Amy Elliott Dunne – Rosamund Pike interpreta Amy, uma mulher inteligente, manipuladora e profundamente complexa. Sua personalidade multifacetada é o motor da narrativa.
  • Nick Dunne – Ben Affleck dá vida a Nick, um homem aparentemente comum, mas que esconde segredos e contradições que o tornam um alvo fácil para suspeitas.
  • Margo Dunne – Carrie Coon interpreta a irmã gêmea de Nick, sua principal aliada.
  • Desi Collings – Neil Patrick Harris encarna o ex-namorado obsessivo de Amy.
  • Detetive Rhonda Boney – Kim Dickens representa a investigação racional e cética.
  • Tanner Bolt – Tyler Perry é o advogado midiático contratado por Nick.

 

Narcisismo, Perversão e Falsidade Identitária

Amy é o arquétipo da mulher que encarna o narcisismo patológico. Segundo Sigmund Freud, o narcisismo primário é uma fase do desenvolvimento em que o indivíduo investe libido em si mesmo. Amy, no entanto, parece ter permanecido fixada nessa fase, desenvolvendo um narcisismo secundário exacerbado, onde o outro existe apenas como espelho ou instrumento.

A construção de Amy como a “Garota Exemplar” é uma crítica à idealização feminina imposta pela sociedade. Ela internaliza esse ideal e o utiliza como ferramenta de manipulação. Como aponta Jacques Lacan, o sujeito é constituído no campo do Outro, e Amy constrói sua identidade a partir da imagem que projeta para o mundo, uma imagem falsa, cuidadosamente arquitetada.

“I’m the bitch you always wanted.”  Amy Dunne

Essa frase, retirada do diário falso que Amy planta como evidência, revela sua consciência sobre o papel que desempenha e sua disposição em subvertê-lo. Amy e Nick vivem uma  “vida falseada”, marcada por sofrimento narcísico e exigências culturais de sucesso e espetáculo. Amy representa a perversão no sentido lacaniano: ela sabe o que o outro deseja e manipula esse desejo para seu próprio benefício.

 

Neurose, Alienação e Ambivalência

Nick é um personagem que transita entre a neurose e a alienação. Ele não compreende plenamente sua esposa, tampouco a si mesmo. Freud descreve a neurose como uma formação de compromisso entre os desejos inconscientes e as exigências da realidade. Nick reprime seus desejos, como o caso extraconjugal, e vive uma vida de aparências.

Sua alienação é evidente na forma como lida com a mídia e com a investigação. Ele não consegue controlar a narrativa sobre si, tornando-se refém da imagem que os outros constroem. Lacan diria que Nick está preso no “registro do imaginário”, incapaz de acessar o “registro do simbólico”, ou seja, a linguagem e a verdade sobre si.

“I didn’t kill my wife. I am not a killer.”  Nick Dunne

Essa frase, repetida ao longo do livro e do filme, revela a tentativa de Nick de afirmar sua inocência, mas também sua impotência diante da narrativa dominante.

 

O Crime como Construção Social e Psicológica

Do ponto de vista criminológico, Gone Girl (Garota Exemplar) oferece um estudo fascinante sobre o crime como construção social e psicológica. Amy não comete um crime por impulso, mas sim por planejamento meticuloso. Ela encena seu desaparecimento para incriminar Nick, utilizando elementos forenses e midiáticos.

A faceta criminal de Amy é intelectual e emocional, não física, contrariando o pensamento do criminalista italiano Cesare Lombroso (1835–1909), considerado o fundador da criminologia moderna, que acreditava que o criminoso possuía traços biológicos inatos. Pode-se refletir também como o sociólogo francês Émile Durkheim (1858–1917), para quem o crime é uma função normal da sociedade, revelando suas tensões. Assim, Amy é produto de uma sociedade que valoriza a aparência, o sucesso e a manipulação.

O criador da teoria da associação diferencial, o sociólogo norte-americano Edwin Sutherland (1883–1950), argumentava que o comportamento criminoso é aprendido. Amy aprendeu a manipular desde cedo, como vemos em seus diários e flashbacks.

Já o jurista e sociólogo britânico da área de criminologia David Garland analisa o papel da mídia na construção do medo e da criminalidade. Em Gone Girl (Garota Exemplar), a mídia é um personagem à parte, moldando a percepção pública de Nick e influenciando a investigação.

E na sua obra ‘Vigiar e Punir: o Nascimento da Prisão’(1975), o filósofo francês Michel Foucault discute o poder disciplinar e o controle dos corpos. Amy exerce esse poder sobre Nick, sobre a polícia e sobre o público, utilizando estratégias de vigilância e punição simbólica.

 

A Mídia como Superego Cultural

No filme, a mídia desempenha o papel de superego freudiano, a instância que julga, pune e exige conformidade. Nick é julgado não apenas pela polícia, mas por apresentadores de TV, redes sociais e voluntários. Sua imagem pública torna-se mais importante do que a verdade dos fatos.

Amy, por sua vez, manipula esse superego midiático, criando uma narrativa que a transforma de vítima em heroína. Ela compreende os mecanismos de controle social e os utiliza para legitimar sua vingança.

“The world is full of weak men who pretend to be strong.” Amy Dunne

Essa frase revela a crítica de Amy à masculinidade contemporânea, e sua disposição em explorar essa fraqueza.

 

A Falsidade Narcísica e a Cultura do Espetáculo

A análise de D. M. de O. Costa e M. E. Arreguy em ‘Das Diferentes Posições Subjetivas em Garota Exemplar: Uma Interpretação Sobre a Falsidade Narcísica Na Idealização Midiática’ destaca a “falsidade narcísica” como elemento central da subjetividade dos personagens. Amy e Nick vivem em um mundo onde a verdade é secundária à performance. A “cultura do espetáculo”, como diria o filósofo marxista  e cineasta Guy-Ernest Debord (1931-1994), autor de ‘A Sociedade do Espetáculo’ (1967), transforma o casamento em um palco e o desaparecimento em um reality show.

Amy encarna a perversão como estratégia de sobrevivência. Ela não busca justiça, mas sim controle. Sua atuação é uma crítica à superficialidade das relações modernas e à idealização midiática da mulher perfeita.

 

A Psicodinâmica do Casal

O relacionamento entre Amy e Nick é marcado por projeções, identificações e recalques. Amy projeta em Nick sua frustração com a perda de status e identidade. Nick, por sua vez, identifica-se com a imagem do marido ideal, mas não consegue sustentá-la.

Freud descreve o casamento como uma arena de conflitos inconscientes, onde desejos reprimidos emergem sob forma de sintomas. Em Gone Girl (Garota Exemplar) o sintoma é o desaparecimento, uma metáfora para a dissolução da identidade conjugal.

“We’re so cute. I want to punch us in the face.”  Amy Dunne

Essa frase irônica revela o desprezo de Amy pela imagem idealizada do casal. Ela reconhece a falsidade da relação e decide destruí-la para reconstruir uma nova narrativa, onde ela é a protagonista absoluta.

 




Transtorno de Personalidade Antissocial

Tradicionalmente, a criminologia retrata a mulher como vítima ou cúmplice. Amy rompe com esse paradigma, tornando-se sujeito ativo do crime. Ela planeja, executa e manipula, desafiando estereótipos de gênero.

A personagem Amy apresenta traços de transtorno de personalidade antissocial (TPA), caracterizado por manipulação, ausência de empatia e comportamento predatório. Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), os critérios incluem:

  • Enganar e manipular para ganho pessoal
  • Ausência de remorso
  • Comportamento impulsivo e agressivo
  • Incapacidade de manter relacionamentos autênticos

Amy cumpre esses critérios com precisão. No entanto, sua inteligência emocional e controle calculado sugerem também traços de transtorno narcisista de personalidade, como grandiosidade, necessidade de admiração e exploração interpessoal.

“I’m so much happier now that I’m dead.” Amy Dunne

Essa frase, que abre o diário falso de Amy, é uma síntese de sua dissociação emocional e da teatralidade com que encena sua própria morte. Ela não apenas manipula os fatos, mas também os sentimentos alheios, criando uma narrativa onde ela é simultaneamente vítima e heroína.

 

A Teoria do Controle Social e o Casamento como Instituição Estrutural

A criminologia contemporânea também oferece ferramentas para compreender o casamento como uma instituição estrutural ou até mesmo disciplinar. Segundo Travis Hirschi, criminólogo norte-americano conhecido pela sua teoria do controle social (Causes of Delinquency) e do autocontrole (General Theory of Crime), na teoria do controle social, os vínculos sociais, como família, trabalho e comunidade, são fundamentais para evitar o comportamento desviante. Quando esses vínculos se enfraquecem, o indivíduo se torna mais propenso ao crime.

No caso de Amy, o vínculo conjugal é rompido não apenas pela infidelidade de Nick, mas pela perda de admiração e reciprocidade. Ela não vê mais sentido em manter o papel de esposa ideal, e decide punir Nick por sua traição simbólica e literal.

“Nick loved a girl who didn’t exist.” Amy Dunne

Essa frase revela o colapso do vínculo conjugal e a percepção de Amy de que sua identidade foi construída para agradar, não para existir. A ruptura desse pacto é o gatilho para sua vingança.

 

A Performance do Crime: O Corpo como Texto

Amy transforma seu corpo em evidência. Ela provoca hematomas, corta-se, deixa rastros de sangue e cria um cenário de violência doméstica. Essa encenação remete à ideia de que o corpo pode ser percebido como um texto, uma narrativa visual que comunica dor, culpa e inocência.

Segundo a autora, filósofa e psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva, a sua teoria do abjeto argumenta que o corpo feminino é frequentemente representado como fonte de perturbação e transgressão. Amy encarna essa figura: seu corpo é ao mesmo tempo objeto de desejo e instrumento de punição.

“I was the happiest I’d ever been. I was the happiest I’d ever be.” Amy Dunne

Essa frase, dita após o retorno de Amy à casa, revela a perversidade de sua satisfação. Ela venceu o jogo, reconquistou o controle e reafirmou sua posição como protagonista da narrativa conjugal.

 

 

A Repressão Masculina e o Ideal de Virilidade

Nick, por sua vez, representa a crise da masculinidade. Ele é incapaz de proteger, de liderar, de controlar. Sua virilidade é constantemente questionada, pela mídia, pela polícia, pela própria esposa. Essa impotência simbólica é um tema recorrente na psicanálise, especialmente na teoria do complexo de castração.

Segundo Lacan, o falo não é um órgão, mas um significante, um símbolo de poder e autoridade. Nick perde esse significante ao ser acusado, exposto e dominado. Sua tentativa de recuperar o controle é frustrada pela astúcia de Amy e pela pressão social.

“I was a man who couldn’t protect his wife.”  Nick Dunne

Essa frase revela o sentimento de inadequação e a internalização do fracasso masculino. Nick não é apenas acusado de um crime, ele é acusado de não ser homem o suficiente.

 

A Ambiguidade Moral: O Crime como Estratégia de Sobrevivência

Uma das maiores forças de Gone Girl (Garota Exemplar) é sua recusa em oferecer respostas fáceis. Amy não é uma vilã unidimensional; Nick não é um herói injustiçado. Ambos são ambíguos, contraditórios, humanos. Essa ambiguidade moral é essencial para a análise psicanalítica, que reconhece que o sujeito é dividido, movido por pulsões opostas e desejos inconscientes.

Na criminologia, essa complexidade é abordada por autores como o sociólogo norte-americano Howard Becker (1928-2023), autor de ‘Outsiders: Estudos em Sociologia do Desvio’ (1963), onde o desvio não é uma qualidade inerente a um ato, mas um rótulo aplicado pela sociedade; em outras palavras, o comportamento se torna desviante somente quando outros o definem dessa forma. Segundo Becker, o desvio é uma construção social: o indivíduo é rotulado como criminoso e passa a agir conforme esse rótulo. Nick é rotulado como assassino pela mídia, e sua identidade é moldada por essa acusação.

Amy, por outro lado, escolhe seu rótulo: ela se torna a vítima perfeita, a esposa exemplar, a mulher renascida. Sua performance é uma estratégia de sobrevivência em um mundo que exige perfeição e submissão.

 

A Subversão do Gênero: A Mulher como Predadora

Tradicionalmente, o cinema retrata a mulher como vítima ou objeto de desejo. Gone Girl(Garota Exemplar) subverte esse paradigma, apresentando uma mulher que é predadora, estrategista, dominante. Amy não apenas manipula os homens, ela manipula o sistema, a mídia, a polícia, o público.

Essa subversão é discutida por autoras feministas como a filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) que argumenta que a mulher é historicamente definida como “o outro”, o complemento do homem. Amy recusa essa posição e assume o papel de sujeito ativo, de agente do próprio destino.

“I’m not a quitter. I’m that bitch.” Amy Dunne

Essa frase é uma declaração de poder. Amy não se desculpa, não se arrepende, não se redime. Ela reivindica sua monstruosidade como forma de resistência.

 

A Vitória do Simulacro

O desfecho de Gone Girl (Garota Exemplar) é perturbador: Amy retorna, é celebrada como heroína, engravida e obriga Nick a permanecer ao seu lado. A verdade é enterrada, e o simulacro triunfa. O sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), em sua teoria da simulação, argumenta que vivemos em uma era onde a cópia substitui o original, onde a aparência é mais real que a realidade.

Amy é o simulacro perfeito: ela encarna a esposa ideal, a vítima resiliente, a mãe dedicada, tudo isso enquanto esconde sua verdadeira natureza. Nick, por sua vez, aceita o papel de marido exemplar, prisioneiro de uma farsa que ele não pode desfazer.

“We are officially in hell.” Nick Dunne

Essa frase final é a síntese do drama: o inferno não é o crime, mas a convivência com a mentira. O casamento torna-se uma prisão simbólica, onde a verdade é irrelevante e a aparência é tudo.

 

A Verdade como Ficção, o Crime como Linguagem

Gone Girl (Garota Exemplar) é uma obra que transcende o gênero policial. Sob a luz da psicanálise e da criminologia, revela-se um estudo profundo sobre identidade, manipulação e poder. Amy e Nick não são apenas personagens, são espelhos de uma sociedade que valoriza a imagem acima da essência, o espetáculo acima da verdade.

A psicanálise nos mostra que o sujeito é dividido, contraditório e movido por desejos inconscientes. A criminologia revela que o crime é uma construção social, moldada por cultura, mídia e poder. Gone Girl (Garota Exemplar) une essas perspectivas em uma narrativa que é, ao mesmo tempo, perturbadora e reveladora.

Amy não é apenas uma criminosa, ela é a arquiteta da narrativa. Nick não é apenas uma vítima, ele é cúmplice na farsa. O casamento, a mídia, a justiça, tudo é linguagem, tudo é performance.

E no fim, o que resta é a pergunta que ecoa silenciosamente: quem somos quando ninguém está olhando?

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas