A interpretação psicanalítica da violência de gênero e a operacionalização do Protocolo Por Todas Elas na prática clínica e na vida pública do Distrito Federal
A violência contra meninas e mulheres é um fenômeno social e
clínico que preserva traços de uma cultura que historicamente objetificou e
sexualizou o corpo feminino, negando-lhes plena subjetividade e direitos. Desnaturalizar essa violência exige
intervenções conjuntas nas instâncias políticas, sociais e clínicas. No
âmbito do Distrito Federal, o Protocolo Por Todas Elas organiza um conjunto de
medidas voltadas à prevenção, proteção e acolhimento em espaços de lazer e
entretenimento, estabelecendo também dispositivos simbólicos como cartazes e
selos para sinalizar ambientes seguros. Para que essas medidas tenham
impacto profundo na vida psíquica das vítimas, é interessante que a
psicanálise contribua com diagnósticos clínicos, estratégias de intervenção e
propostas de atuação comunitária que articulem o singular e o coletivo.
Este artigo aborda, sob a ótica psicanalítica, os sentidos
psíquicos da violência de gênero, as formas de resistência subjetiva diante do
trauma e da vergonha, e como o Protocolo Por Todas Elas pode ser
incorporado na prática clínica e nas políticas públicas locais, oferecendo
ainda sugestões concretas para aplicar o protocolo no cotidiano das meninas e
mulheres residentes do Distrito Federal, integrando estratégias de prevenção,
acolhimento e reabilitação psíquica.
Violência de gênero: psicanálise, cultura e subjetividade
A psicanálise entende a violência de gênero como expressão de
estruturas simbólicas, imaginárias e reais que constroem hierarquias de poder
entre os sexos. A objetificação e a sexualização precoce das meninas
consolidam modos de introjeção que vão desde a tendência à autocensura e à
vergonha até a repetição de situações que fragilizam os limites do corpo. Esses
processos não são apenas individuais; estão enraizados em práticas sociais,
linguagem e instituições que naturalizam determinados comportamentos.
Do ponto de vista clínico, a violência sexual produz efeitos
múltiplos: trauma agudo com risco de dissociação, internalização de culpa e
vergonha, prejuízo da capacidade de mentalizar estados internos, e alteração de
vínculos de confiança. Em pacientes mais jovens, a agressão pode interromper trajetórias de
desenvolvimento, comprometendo a simbolização de experiências afetivas e
sexuais. Em todas as idades, há uma necessidade de que a clínica saiba ler e
trabalhar as manifestações transferenciais que emergem nas relações
terapêuticas: desconfiança, repetição do padrão de exposição, idealização de
protetores que se revelam insuficientes, ou retraimento absoluto diante da
opção de pedir ajuda.
A psicanálise dialoga com essa realidade a partir de alguns
eixos centrais: a decodificação dos significantes culturais que sustentam a
violência; a escuta do sofrimento singular; a interpretação da resistência e da
transferência para restituir à vítima capacidade de nomear, simbolizar e
redesenhar sua relação com o corpo e com o desejo; e a articulação clínica com
redes de proteção social para assegurar segurança material e jurídica. Essas
intervenções pretendem ser sensíveis ao contexto sociocultural do Distrito
Federal, às desigualdades e às diferenças geracionais e étnico-raciais.
O Protocolo Por Todas Elas: breve caráter institucional e
possibilidades de interlocução clínica
O Protocolo Por Todas Elas, instituído no Distrito
Federal, orienta a prevenção e a atuação imediata de apoio a vítimas de
violência, assédio ou importunação sexual em estabelecimentos de lazer e
entretenimento, prevendo a implantação de sinais visíveis, ações de acolhimento
e a criação do Selo Todos Por Elas para espaços que adotarem as medidas
previstas. Essa iniciativa insere-se num quadro jurídico e institucional
mais amplo que busca reforçar políticas públicas e coordenar serviços de
acolhimento, proteção e responsabilização dos agressores.
Para a psicanálise, o Protocolo oferece uma base material e
simbólica para auxiliar no trabalho clínico. Simbolicamente, a presença de
cartazes e do selo opera como um dispositivo de validação da existência de um
direito à segurança e ao reconhecimento do que foi sofrido. Materialmente, o
protocolo fortalece redes de atendimento que podem encaminhar vítimas para
serviços psicológicos e jurídicos especializados, garantindo proteção imediata
e continuidade do cuidado. A psicanálise, nesse cenário, pode contribuir com
formações para profissionais que atuam nas frentes do protocolo, supervisão de
equipes de acolhimento e proposição de fluxos que levem em conta a
especificidade do sofrimento traumático e das resistências à procura por ajuda.
Quando a vítima procura um serviço de acolhimento previsto
pelo Protocolo, ou chega ao consultório, é essencial que a intervenção
inicial siga princípios psicanalíticos compatíveis com a urgência e com a
necessidade de criar condições de segurança psíquica.
- Acolhimento e validação do
relato
O primeiro momento clínico deve
priorizar a escuta sem pressa de interpretação explicativa. Validar a
experiência, reconhecer a violência e nomear a legitimidade do sofrimento são
atos essenciais para reduzir a vergonha e a culpa que frequentemente inibem a
narrativa. A presença de sinais públicos do protocolo em espaços de convívio
reforça essa validação simbólica ao comunicar que a experiência da vítima será
reconhecida e tratada com seriedade.
- Contenção emocional e
estabilização
Para vítimas de trauma recente, a
prioridade é estabilizar: reduzir a ansiedade, verificar riscos imediatos e, se
necessário, articular encaminhamento médico e jurídico. A técnica psicanalítica
aqui inclui intervenções que ajudem a manter a narrativa no tempo presente sem
forçar a elaboração completa do trauma. Estratégias de grounding, ajuda para
identificar sinais corporais e pautas para cuidado imediato são compatíveis com
uma clínica psicanalítica sensível.
- Avaliação das defesas e
resistência à busca de ajuda
A resistência aparece não apenas como
recusa explícita, mas também como esquiva, minimização do evento, ou
deslocamento do sofrimento para sintomas somáticos. A interpretação clínica
precisa ser calibrada: antes de propor insights de profundidade, o analista
deve mapear a função das defesas, proteção contra um superego punitivo,
manutenção de vínculos familiares, medo de retaliação social e intervir de modo
a não intensificar a retraumatização.
- Introdução progressiva da
interpretação transferencial
Uma vez criada estabilidade, a
clínica psicanalítica pode trabalhar a transferência: como a vítima posiciona o
analista em relação às figuras parentais, aos agentes de autoridade ou ao
agressor? Muitas vezes emergem padrões repetitivos que explicam por que a
vítima não buscou ajuda anteriormente, ou porque escolheu determinados
ambientes. Interpretar essas repetições em pequenos gestos terapêuticos
contribui para que a vítima reconheça que sua reação foi uma resposta possível
ao sofrimento, reduzindo a vergonha e abrindo espaço para escolhas diferentes.
- Trabalho com a culpa e a
vergonha
A culpa frequentemente circula em
torno da fantasia de que a vítima "provocou" a violência. A
psicanálise trabalha para desnudar essas fantasias introjetadas, diferenciando
responsabilidade ética de coerções e violências externas. Intervenções que
desmontem mecanismos de autoacusação ajudam na reconstrução do sentido de
agência.
- Prevenção
de reenactments e atuação com a rede
A análise deve articular-se com as redes sociais e institucionais: alertar sobre riscos, orientar estratégias de segurança e, quando necessário, ativar medidas de proteção previstas no protocolo. O trabalho clínico não é isolado; para que a interpretação prospere, é preciso integrar ações concretas que reduzam a exposição à agressão.
Integração do Protocolo na prática clínica: sugestões
metodológicas
A incorporação do Protocolo Por Todas Elas na prática clínica
demanda procedimentos que facilitem o fluxo entre acolhimento institucional e
acompanhamento psicanalítico contínuo. Abaixo estão sugestões práticas e
operacionais:
- Parceria
formal com serviços do protocolo
- Estabelecer
convênios ou acordos com centros de acolhimento e serviços públicos
indicados pelo protocolo para garantir referências rápidas.
- Participar
de redes interinstitucionais que possibilitem retorno clínico sobre
encaminhamentos, respeitando confidencialidade.
- Protocolos
clínicos internos para atendimento de emergência
- Formular
procedimento interno para atendimentos urgentes: acolhimento inicial,
avaliação de risco, comunicação com órgãos competentes, e encaminhamento
para acompanhamento terapêutico.
- Treinar
equipes administrativas para responder adequadamente a relatos e
sinalizar a vítima para espaços de escuta qualificada.
- Supervisão
e formação transdisciplinar
- Oferecer
supervisão psicanalítica a profissionais que atuam em salas de
acolhimento do protocolo, para prevenir desgaste e uso inadequado de
técnicas.
- Promover
oficinas sobre linguagem adequada, manejo de crise e prevenção de
revitimização.
- Criação
de itinerários terapêuticos adaptados por faixa etária
- Para
meninas e adolescentes: articular com serviços escolares, psicopedagogos
e equipes de saúde para intervenções que considerem desenvolvimento e
vínculos familiares.
- Para
mulheres adultas: combinar trabalho sobre trauma, questões de vínculo
conjugal e estratégias de proteção prática.
- Estratégias
de curto, médio e longo prazo
- Curto
prazo: estabilização, encaminhamento jurídico, orientações de segurança.
- Médio
prazo: psicoterapia focalizada em trauma com ênfase em mentalização,
regulação emocional e reconstrução da narrativa.
- Longo
prazo: trabalho sobre relações afetivas, sexualidade e reinvenção de
padrões de vínculo.
- Documentação
e avaliação clínica contínua
- Implementar
prontuários que registrem indicadores clínicos relevantes (níveis de
dissociação, sono, presença de sintomas somáticos, recursos de apoio),
permitindo avaliação da eficácia dos fluxos de atendimento.
Prevenção e promoção pública: ampliando o impacto do
Protocolo na vida das meninas e mulheres do DF
A psicanálise oferece contribuições além do consultório. Para
que o Protocolo Por Todas Elas produza transformação cultural, é preciso
articulação com políticas educativas, campanhas e ações comunitárias.
Sugestões:
- Programas
educativos em escolas e espaços comunitários
- Oficinas
sobre consentimento, respeito aos limites e linguagem do corpo adaptadas
por faixa etária.
- Intervenções
para professores e familiares que destilem mitos sobre culpa e vergonha e
favoreçam escuta e denúncia.
- Formação
de “pontos de apoio” certificados
- Promover
a adesão de estabelecimentos ao selo “Todos Por Elas” com capacitação de
funcionários para acolhimento inicial, identificação de sinais de
violência e acionamento de rede de proteção.
- Treinamento
específico para seguranças, seguranças voluntárias e equipes de eventos.
- Campanhas
públicas que desnaturalizem a violência
- Campanhas
com foco em desmontar padrões de objetificação e estereótipos de gênero,
privilegiando narrativas que promovam empatia e responsabilização social.
- Utilizar
espaços públicos e mídias locais para dar visibilidade ao protocolo e às
linhas de apoio.
- Espaços
de apoio comunitário e rodas de escuta
- Criar
grupos de apoio coordenados por profissionais capacitados onde
sobreviventes possam compartilhar e simbolizar suas experiências em
ambiente seguro.
- Oferecer
grupos específicos para adolescentes que tenham vivenciado assédio em
espaços de lazer.
- Monitoramento,
avaliação e pesquisa local
- Desenvolver
projetos de pesquisa em parceria com universidades do DF para avaliar o
impacto das medidas do protocolo, identificar lacunas e ajustar práticas.
- Produzir
indicadores que monitorem adesão ao selo e eficácia de acolhimento.
- Ações
afirmativas para populações vulneráveis
- Priorizar
estratégias para mulheres negras, indígenas, periféricas e transgênero,
que frequentemente enfrentam formas específicas de violência e barreiras
de acesso aos serviços.
- Promover
equipes multilíngues e culturalmente situadas quando necessário.
Trabalho com meninas e adolescentes: especificidades
psicanalíticas e prevenção
A intervenção psicanalítica com meninas requer sensibilidade
ao desenvolvimento e à sexualidade emergente. Recomendações clínicas e
públicas:
- Educação
sobre corpo e limites desde a infância
- Projetos
em escolas que ensinem linguagem do consentimento, identificação de zonas
íntimas e direitos sobre o próprio corpo.
- Acolhimento
especializado para denúncias juvenis
- Criar
rotinas de escuta que não culpabilizem a criança/adolescente e que
convoquem família e rede para medidas de proteção, mantendo a prioridade
do bem-estar psíquico.
- Programas
de empoderamento e autocuidado
- Oficinas
que reforcem autoestima, reconhecimento de sinais de abuso e estratégias
de busca de ajuda.
- Clínica
adaptada para experiência traumática precoce
- Psicoterapia
que combine suporte relacional, construção de narrativa e trabalho sobre
a imagem corporal e sexualidade segura.
Formação e supervisão de profissionais: sustentação técnica e
ética
A psicanálise pode assumir importante papel na formação de
agentes que operacionalizam o protocolo:
- Currículos
de formação que incluam trauma, sexualidade e violência de gênero
- Cursos
e formações contínuas para profissionais de saúde, segurança, educação e
gestores culturais.
- Supervisão
regular para evitar revitimização e desgaste
- Supervisores
psicanalíticos orientam o manejo da contratransferência e das
resistências institucionais.
- Grupos
de apoio para profissionais de acolhimento
- Espaços
onde se processam emoções derivadas do contato constante com vítimas,
prevenindo burnout.
Avaliação de riscos e limites da intervenção psicanalítica
É preciso reconhecer limites e evitar excessos:
- A
interpretação analítica não substitui medidas legais e de proteção
imediata; ambas são necessárias e complementares.
- Intervenções
clínicas inadequadas podem revitimizar; por isso, formações e protocolos
de triagem são essenciais.
- A
psicanálise, ao atuar em políticas públicas, deve evitar tecnicismos que
invisibilizem desigualdades estruturais, adotando postura crítica e
engajada.
Articulação entre clínica, protocolo e vida pública
A violência contra meninas e mulheres é enredada em símbolos,
práticas e relações que exigem respostas articuladas. O Protocolo Por Todas
Elas cria uma infraestrutura institucional que pode transformar ambientes
de lazer e entretenimento em espaços de menor risco e maior acolhimento,
sinalizando para a população que há compromisso público com a segurança das
mulheres.
A psicanálise, por sua vez, oferece ferramentas essenciais
para lidar com o efeito subjetivo da violência: acolhimento que reduz a vergonha,
entrevistas que estabilizam, interpretações que ajudam a reconstruir a
narrativa e a agência, e intervenções comunitárias que fomentam mudança
cultural.
Para que o protocolo alcance ainda mais seu potencial
transformador no Distrito Federal, seria produtivo integrá-lo à prática clínica
através de parcerias formais, rotinas de atendimento emergencial, formação
transdisciplinar e ações públicas orientadas para a prevenção e a inclusão. É necessário também desenvolver
programas específicos para meninas e mulheres em situação de maior
vulnerabilidade, e investir em pesquisa e monitoramento que permitam avaliar e
aprimorar as medidas.
Ao conjugar a força simbólica do protocolo com a escuta e a
intervenção psicanalítica, abre-se um caminho no qual a denúncia deixa de ser
um gesto solitário e passa a integrar uma rede de proteção que respeita a
singularidade do sofrimento e promove a reconstrução de subjetividades feridas.
A mudança cultural que buscamos depende da articulação entre direitos
garantidos em lei, práticas institucionais efetivas e intervenções clínicas que
saibam transformar a dor em possibilidade de ressignificação, autonomia e
proteção.
Fontes:
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