“Ela não vai sobreviver”: Poder, Narcisismo e Feminicídio — Uma Leitura do Caso da Soldado Gisele Alves Santana
Aviso:
Este artigo discute um caso real em andamento. Mais um caso de feminicídio. O tenente-coronel da PMESP
Geraldo Neto foi preso e formalmente acusado de feminicídio e fraude
processual. Novas informações podem surgir, e este texto poderá ser atualizado
conforme o avanço das investigações. O objetivo aqui não é analisar
psiquicamente indivíduos, mas compreender, à luz da psicanálise, da
criminologia e da sociologia, as posições subjetivas e sociais que costumam
aparecer em casos de violência de gênero.
A psicanálise não pretende substituir, por óbvio, a investigação criminal, mas oferece ferramentas para compreender as fantasias e posições subjetivas que sustentam atos extremos. A frase “Ela não vai sobreviver.” não é apenas uma ameaça; é a expressão de uma lógica psíquica em que o desejo se confunde com a vontade de anular o outro. Nessa posição, o agressor não reconhece a mulher como sujeito autônomo, mas como extensão de si — um espelho que deve refletir sua grandiosidade.
Autores clássicos e contemporâneos ajudam a mapear esse funcionamento: a onipotência do pensamento freudiana, a identificação projetiva de Melanie Klein, o “discurso do mestre” em Lacan e as análises sobre narcisismo de André Green e Kohut. Juntos, esses referenciais descrevem um sujeito que reage à perda de controle com destrutividade, tentando preservar um eu frágil por meio da dominação.
1. Quando uma frase anuncia
uma estrutura
Alguns casos de feminicídio não
chocam apenas pela tragédia, mas pelo que deixam escapar antes do ato. Pequenas
frases, aparentemente soltas, que condensam uma lógica inteira de poder,
domínio e fantasia. No caso da soldado da PMESP Gisele Alves Santana,
morta em circunstâncias que levaram no dia 18/03/2026 à prisão de seu marido, o
tenente-coronel Geraldo Neto, duas frases atribuídas a ele se tornaram
símbolos perturbadores:
“Ela não vai sobreviver.”
“Sou rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito,
gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano.”
Essas frases não são apenas
declarações infelizes. Elas revelam uma posição subjetiva típica de muitos
agressores: a fantasia de onipotência, o narcisismo grandioso, a necessidade de
domínio e a recusa da alteridade feminina.
Agora, com a prisão preventiva
decretada em exercício e a acusação formal de feminicídio e fraude processual, o
caso deixa de ser apenas suspeita e passa a integrar a longa lista de mulheres
mortas por homens que diziam amá-las.
2. O feminicídio como sintoma
estrutural — não como exceção
O Brasil vive uma epidemia de
feminicídios. A cada novo caso, a sociedade reage com indignação, mas logo
volta à rotina. O feminicídio não é um acidente, nem um “surto”, nem um “crime
passional”. É o ponto final de uma cadeia de violências que começa muito antes:
- humilhações,
- controle,
- vigilância,
- ameaças,
- manipulação emocional,
- isolamento,
- desqualificação.
O feminicídio é um crime de
poder. Ele nasce da crença de que a mulher é propriedade do homem.
A psicanálise, por sua vez, ajuda
a entender como essa crença se enraíza no psiquismo, especialmente em
estruturas marcadas por fragilidade narcísica, onipotência e dificuldade de
reconhecer o outro como sujeito.
3. A posição psíquica do
agressor: onipotência, domínio e ferida narcísica
A frase “ela não vai sobreviver”,
se confirmada, não é apenas cruel. Ela carrega uma estrutura psíquica antiga,
primitiva, que Freud descreveu como onipotência do pensamento. É a
fantasia infantil de que o desejo cria o mundo.
Em adultos, essa fantasia deveria
estar simbolizada. Mas, em algumas posições subjetivas, ela permanece intacta —
especialmente em sujeitos que ocupam posições de autoridade rígida, como forças
militares, onde a hierarquia reforça a ilusão de controle absoluto.
Autores como Freud, Lacan,
Bion, Klein, Winnicott e André Green ajudam a
compreender essa posição:
- Freud fala da onipotência e do narcisismo
primário.
- Klein descreve a identificação projetiva e a
destrutividade.
- Bion analisa a evacuação de angústias no
outro.
- Lacan discute o “discurso do mestre” e o
gozo do poder.
- Green fala do “narcisismo negativo”, que
destrói o objeto para preservar o eu.
- Winnicott descreve o falso self e a
fragilidade por trás da grandiosidade.
O agressor, nessa posição, não vê
a mulher como sujeito. Ele a vê como extensão de si. Quando ela se separa, se
afirma ou se autonomiza, isso é vivido como ataque.
4. A posição psíquica da
vítima: ambivalência, esperança e aprisionamento afetivo
A psicanálise não culpa a vítima
— jamais. Mas ela ajuda a entender por que tantas mulheres permanecem em
vínculos violentos.
A vítima vive uma dinâmica psíquica complexa:
- culpa,
- medo,
- esperança de mudança,
- dependência emocional,
- isolamento,
- manipulação afetiva,
- confusão entre amor e violência.
A vítima não está apenas presa ao
agressor — está presa à fantasia de que ele pode voltar a ser o homem do
início. A violência alternada com momentos de “cuidado” cria um ciclo
traumático que aprisiona.
5. A mulher policial: quando a
autonomia feminina fere o narcisismo masculino
Gisele era policial militar, uma condição que, simbolicamente, altera a dinâmica do conflito. Mulheres em posições de autoridade dentro de instituições historicamente masculinas frequentemente enfrentam reações que extrapolam o âmbito privado: sua autonomia pode ser percebida como afronta à virilidade e desencadear tentativas de silenciamento ou eliminação. A criminologia mostra que esse padrão não é exceção; é parte de uma estrutura que naturaliza a posse e a punição quando a mulher deixa de cumprir o papel subalterno esperado.
A alternância entre violência e gestos de cuidado, a manipulação afetiva e o isolamento são elementos que prendem muitas vítimas a vínculos letais. Entender por que uma mulher permanece em uma relação assim exige olhar para a ambivalência psíquica, para a esperança de mudança e para as estratégias de controle que o agressor emprega dentro e fora da corporação.
Há um elemento simbólico poderoso
neste caso: Uma mulher armada, treinada,
disciplinada, inserida em uma instituição historicamente masculina.
Para muitos agressores, isso é
vivido como:
- ameaça à virilidade,
- competição simbólica,
- perda de controle,
- ferida narcísica profunda.
A criminologia mostra
que mulheres que ocupam posições de poder — policiais, militares, juízas,
delegadas — são frequentemente alvo de violência doméstica. Não porque são
frágeis, mas porque sua autonomia fere o imaginário patriarcal.
A psicanálise confirma: quando o
narcisismo masculino é ferido, a reação pode ser devastadora.
6. Identificação projetiva: quando o agressor deposita sua sombra na mulher
Melanie Klein descreveu, em 1946,
o mecanismo da identificação projetiva: o sujeito expulsa partes
intoleráveis de si e as deposita no outro.
Em muitos casos de violência
doméstica, o agressor projeta na mulher:
- sua própria insegurança,
- sua própria inveja,
- sua própria fragilidade,
- seu próprio ódio de si.
A mulher passa a carregar aquilo que não é dela. Ela vira
depósito da sombra do outro.
Se ela demonstra autonomia, isso é vivido como ataque.
Se ela se afasta, é vivido como abandono.
Se ela se impõe, é vivido como humilhação.
O agressor, então, tenta controlar, sufocar, dominar — não
porque ama demais, mas porque não suporta perder o espelho que sustenta sua
identidade.
7. O discurso religioso como máscara de poder
Em muitos casos de violência doméstica, a religião é usada
como:
- justificativa
moral,
- instrumento
de controle,
- máscara
de bondade,
- forma
de manter a mulher submissa.
O narcisista espiritualizado acredita que sua autoridade é
divina. Que sua posição é sagrada. Que sua mulher deve obedecer.
A religião, nesse contexto, não é fé — é ferramenta de
poder.
8. A fraude processual: o
controle que continua após o ato
A acusação de fraude processual adiciona outra camada psíquica ao caso. A tentativa de manipular a cena, de controlar a narrativa, de moldar a realidade ao próprio desejo, tudo isso é coerente com a posição subjetiva do agressor em casos de feminicídio. A acusação de fraude processual revela que o controle do agressor não termina com o ato físico: há uma tentativa de moldar a narrativa, de manipular provas e de manter a aparência de autoridade mesmo diante da investigação. Esse comportamento é coerente com a fantasia de soberania que se manifesta em declarações públicas e privadas, a necessidade de que a realidade se conforme ao desejo.
Quando a instituição que deveria proteger também abriga mecanismos de hierarquia rígida, a investigação enfrenta desafios adicionais: resistências internas, silêncio de colegas e a naturalização de condutas abusivas. Por isso, medidas administrativas como a abertura de processo de expulsão e a prisão preventiva são passos essenciais, mas insuficientes se não vierem acompanhadas de mudanças institucionais profundas.
O agressor não suporta limites. Nem mesmo os da lei.
Ele tenta controlar até o que vem depois.
9. A psicanálise do poder: o homem que se diz “rei”
Quando um homem se autoproclama
“rei”, “soberano”, “provedor”, ele está revelando uma posição psíquica baseada
em:
- hierarquia rígida,
- necessidade de submissão do outro,
- fantasia de superioridade,
- fragilidade interna mascarada por grandiosidade.
Autores como Lacan, Freud,
Green e Kohut ajudam a compreender essa posição:
- Lacan fala do “discurso do mestre”.
- Freud descreve o narcisismo primário.
- Green analisa o narcisismo destrutivo.
- Kohut discute o self grandioso e sua fragilidade.
O agressor não ama o outro — ama
a si mesmo através do outro. A mulher é espelho. Quando o espelho racha, ele
tenta destruí-lo.
10. Nota metodológica: por que
a psicanálise é uma lente válida para analisar feminicídios
A psicanálise não substitui a
criminologia, a sociologia ou o direito. Mas ela oferece algo que nenhuma
dessas áreas alcança: a compreensão da fantasia.
O feminicídio não é apenas um ato
físico. É um ato simbólico. Ele nasce de:
- fantasias de posse,
- delírios de onipotência,
- feridas narcísicas,
- projeções destrutivas,
- medo da perda do objeto,
- incapacidade de reconhecer a mulher como sujeito.
A psicanálise permite:
- entender o funcionamento psíquico do agressor,
- compreender por que a vítima permanece no vínculo,
- analisar o papel da cultura na formação do
narcisismo masculino,
- interpretar frases, gestos e discursos que
antecedem a violência,
- revelar a lógica inconsciente que sustenta o
patriarcado.
Ela não explica tudo — mas
ilumina o que está nas sombras.
11. Bibliografia
psicanalítica, sociológica e criminológica
Psicanálise — clássicos e
contemporâneos
- Freud, Sigmund — O Inquietante; Psicologia
das Massas; Totem e Tabu.
- Klein, Melanie — Inveja e Gratidão; Notas
sobre Alguns Mecanismos Esquizóides.
- Lacan, Jacques — Seminário 10: A Angústia; Seminário
17: O Avesso da Psicanálise.
- Winnicott, D. W. — O Ambiente e os Processos de
Maturação.
- Bion, W. R. — Aprendendo com a Experiência.
- André Green — O Discurso Vivo; Narcisismo
de Vida, Narcisismo de Morte.
- Christopher Bollas — A Sombra do Objeto.
- Otto Kernberg — Transtornos de Personalidade.
- Heinz Kohut — A Restauração do Self.
- Jessica Benjamin — Os Laços do Amor.
- Marie-France Hirigoyen — A Violência no Casal.
Criminologia (dentre outros)
- Heleieth Saffioti — Gênero, Patriarcado e
Violência.
- Diana Russell — Femicide: The Politics of Woman Killing.
- Lenore
Walker — The Battered Woman.
Sociologia da violência (dentre outros)
- Pierre Bourdieu — A Dominação Masculina.
- Judith Butler — Quadros de Guerra.
- Djamila Ribeiro — O Que é Lugar de Fala?.
12. Conclusão: o que este caso
nos obriga a encarar
O caso de Gisele Alves Santana expõe, de forma brutal, que nem a farda nem a patente garantem segurança às mulheres. Trata‑se de um episódio que combina uma trajetória de controle e humilhação com uma posição subjetiva do agressor marcada por narcisismo e delírio de poder. A prisão preventiva do acusado e as evidências periciais apontam para a necessidade de que a investigação siga até suas últimas consequências, com transparência e rigor técnico.
Além do desfecho judicial, o episódio impõe à sociedade uma reflexão urgente: políticas efetivas de prevenção, canais seguros para denúncias, formação educacional sobre violência de gênero nas escolas e mecanismos legais que rompam a cultura da impunidade são medidas indispensáveis.
A psicanálise nos lembra que o feminicídio é sempre o desfecho de uma história de apagamento da mulher. A criminologia nos lembra que ele é estrutural. A sociologia nos lembra que ele é político.
Enquanto não encararmos o
feminicídio como sintoma de uma cultura que autoriza homens a se sentirem
“reis”, “soberanos” e donos da vida das mulheres, continuaremos enterrando
Gisele, e tantas outras.
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