O Filho Dourado Milionário (Em Fantasia), Narcisismo Materno e Neuroses Familiares

 


As dinâmicas familiares atravessadas pelo narcisismo materno constituem um dos cenários mais complexos e devastadores estudados pela psicanálise. Quando a mãe organiza sua vida psíquica em torno da necessidade de ser admirada, idealizada e confirmada, seus filhos deixam de ser sujeitos e passam a funcionar como extensões de seu próprio ego. Nesse contexto, surgem dois papéis clássicos: o filho dourado, idealizado e protegido, e a filha negligenciada, relegada à invisibilidade emocional.

A história analisada aqui, embora apresentada de forma narrativa, é exemplar para compreender como o narcisismo materno, aliado à conivência paterna e às neuroses familiares, pode produzir adultos emocionalmente imaturos e incapazes de lidar com a realidade. Ao mesmo tempo, revela como a filha, excluída do investimento afetivo, é empurrada para uma vida de responsabilidade precoce, solidão emocional e lucidez dolorosa.

O caso envolve manipulação financeira, uso indevido de documentos, endividamento dos pais, perda de patrimônio e uma fantasia delirante de riqueza sustentada por todos, exceto pela filha, que enxerga a verdade com clareza. A psicanálise oferece ferramentas fundamentais para compreender como esse sistema se organiza e se perpetua.

1. Narcisismo materno e a fabricação do filho dourado

Freud, ao discutir o narcisismo, descreve como alguns pais depositam nos filhos seus próprios ideais, transformando-os em recipientes de expectativas grandiosas. A mãe narcisista, segundo autores como Alice Miller, Elan Golomb e Otto Kernberg, não enxerga o filho como sujeito, mas como prolongamento de si mesma. Ela o idealiza não por quem ele é, mas pelo que representa para sua autoimagem.

No caso analisado, o filho é escolhido como o depositário do brilho materno. Ele é elogiado, protegido, poupado de críticas e consequências. A mãe passa a mão em sua cabeça, literal e simbolicamente, sempre que ele falha, erra ou prejudica alguém. Ele é o “especial”, o “talentoso”, o “promissor”, mesmo quando suas ações concretas contradizem essa narrativa.

A filha, por outro lado, não recebe o mesmo investimento. Ela não serve ao narcisismo materno. Talvez porque lembre a mãe de aspectos de si que ela rejeita; talvez porque não corresponda ao ideal imaginário. Como descreve Winnicott, a mãe narcisista não oferece o “ambiente suficientemente bom” para a filha, que cresce sem espelhamento, sem validação e sem a experiência de ser vista.

2. A conivência paterna: o pai como cúmplice silencioso

A psicanálise familiar contemporânea destaca que, em sistemas disfuncionais, o pai frequentemente assume o papel de cúmplice passivo. Ele não confronta a mãe, não protege a filha e não estabelece limites para o filho dourado. Sua omissão é uma forma de participação ativa.

No caso em questão, o pai não apenas se omite: ele endossa a fantasia materna e a grandiosidade do filho. Ele participa das decisões financeiras desastrosas, aceita vender bens, aceita hipotecar a casa, aceita que o filho utilize o CPF da mãe em uma empresa na qual ele era sócio oculto, prática que pode configurar falsidade ideológica, fraude e até estelionato, dependendo das circunstâncias.

A conivência paterna reforça a estrutura familiar: a mãe idealiza, o pai confirma, o filho se sente intocável e a filha permanece invisível.

3. O uso do CPF da mãe e as possíveis ilegalidades

O filho, já adulto, utiliza o CPF da mãe para abrir ou participar de uma empresa como sócio oculto. Do ponto de vista jurídico, isso pode envolver:

  • Falsidade ideológica, se a mãe não compreendia plenamente o uso de seus dados.
  • Fraude fiscal, caso o CPF seja usado para mascarar o verdadeiro responsável pela empresa.
  • Responsabilização trabalhista e civil da mãe, que passa a responder por dívidas e ações judiciais.
  • Endividamento forçado, já que empréstimos foram feitos em nome da mãe em bancos nos quais ela sequer tinha conta.

A mãe, já idosa, passa a responder na Justiça do Trabalho, em varas cíveis, no Serasa e em bancos. Uma das casas da família é perdida devido a uma hipoteca feita a pedido do filho, cujas prestações nunca foram pagas.

Do ponto de vista psicanalítico, esse comportamento revela traços narcisistas e possivelmente antissociais, mas também evidencia a consequência direta de décadas de permissividade e idealização.

4. A fantasia delirante de riqueza: “o milionário em dólares que mora no quarto dos pais”

Um dos elementos mais clinicamente relevantes é a fantasia sustentada pelo filho e pelos pais: a de que ele é milionário em dólares. Mesmo após perder a casa hipotecada, mesmo vivendo em um quarto na casa dos pais, ele afirma ser milionário. E os pais repetem essa narrativa para familiares, funcionários e conhecidos, que sabem que é só uma narrativa.

A psicanálise chama isso de delírio compartilhado (folie à deux). A fantasia protege:

  • a mãe, que não suporta admitir que seu filho dourado fracassou;
  • o pai, que não suporta admitir sua conivência destrutiva;
  • o próprio filho, que não suporta admitir sua incompetência e dependência.

A fantasia funciona como defesa contra a realidade, como descreve Freud em “Neurose e Psicose”: quando a realidade é insuportável, o ego a substitui por uma versão mais palatável.



5. A filha: a criança invisível que se torna adulta responsável — e como ela supera tudo com a ajuda da psicanálise

Enquanto o filho é exaltado, a filha cresce sem reconhecimento. Ela não recebe elogios, não recebe investimento emocional, não recebe bens, não recebe doações. Ela é a que sempre foi responsável, mas nunca foi vista. Alice Miller descreve esse tipo de filha como a criança invisível, aquela que aprende, com o tempo, a não a não esperar. Ela se torna adulta responsável e empática, mas carrega um vazio afetivo profundo.

A negligência materna, combinada com a idealização do irmão, produz na filha:

  • baixa autoestima
  • sentimento de inadequação
  • culpa por existir
  • tendência a assumir responsabilidades que não são suas
  • dificuldade em estabelecer limites

Mas, ao contrário do que ocorre em muitas famílias com essa configuração, essa filha encontra um caminho de saída: a psicanálise.

A psicanálise não apaga o passado, mas oferece algo que ela nunca teve dentro da família: um espaço onde ela é vista, escutada e reconhecida como sujeito. Autores como Winnicott, Ferenczi e Lacan descrevem que, quando alguém cresce sem espelhamento emocional, a terapia pode funcionar como uma espécie de “segundo nascimento psíquico”. No caso da filha, esse processo envolve vários movimentos fundamentais:

1. Reconhecer que a negligência emocional não foi culpa dela

A psicanálise a ajuda a compreender que a falta de amor materno não foi causada por falhas suas, mas pelas limitações narcísicas da mãe. Esse deslocamento, do “eu sou insuficiente” para “ela não podia dar o que eu precisava” , é libertador.

2. Nomear o que viveu

O que não pode ser nomeado, não pode ser elaborado. Ao colocar palavras na experiência, abandono afetivo, triangulação, idealização do irmão, conivência paterna, ela transforma dor difusa em narrativa compreensível. Como diz Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”: ao falar, ela reorganiza o vivido.

3. Diferenciar-se da família

A terapia a ajuda a perceber que ela não precisa repetir o papel de cuidadora compulsiva, nem carregar responsabilidades que não são suas. Ela aprende a estabelecer limites, a dizer “não”, a não se sacrificar para manter a fantasia dos outros.

4. Recuperar a autoestima

Ao ser escutada sem julgamento, ela experimenta algo que nunca teve: a sensação de existir para alguém. Isso permite reconstruir uma imagem de si baseada em realidade, não em rejeição.

5. Romper com a culpa

A culpa é um dos efeitos mais profundos da negligência materna. A psicanálise a ajuda a entender que a culpa não lhe pertence, ela foi introjetada. Ao devolver essa culpa ao lugar de origem, ela se liberta.

6. Construir uma vida própria

Com o tempo, ela passa a fazer escolhas que não giram mais em torno da família. Ela se autoriza a ter desejos, projetos, relações saudáveis. Ela deixa de ser a “filha que sustenta tudo” e passa a ser a mulher que se sustenta emocionalmente.

7. Enxergar a verdade sem se destruir por ela

A filha sempre viu a realidade, mas isso antes era fonte de sofrimento. Com a psicanálise, a lucidez deixa de ser um fardo e se torna força. Ela compreende que não precisa convencer ninguém, nem salvar ninguém. Ela pode simplesmente viver sua verdade.

A superação como ato de autonomia psíquica

A filha não supera porque a família muda, ela supera porque ela muda.
Ela se torna capaz de olhar para a história sem se confundir com ela.
Ela deixa de ser a criança invisível e se torna sujeito de sua própria vida. A psicanálise, nesse sentido, funciona como o espelho que ela nunca teve:
um lugar onde ela finalmente se vê, se reconhece e se autoriza a existir.

6. A dinâmica familiar como sistema neurótico

A família opera como um sistema neurótico fechado, no qual cada membro desempenha um papel fixo:

  • A mãe narcisista: idealiza o filho e desvaloriza a filha.
  • O pai conivente: reforça a fantasia e evita conflitos.
  • O filho dourado: vive na grandiosidade, na irresponsabilidade e na dependência.
  • A filha negligenciada: assume a função de adulta emocional, mesmo sem apoio.

Segundo Murray Bowen, esse tipo de sistema produz triangulações, nas quais a filha é excluída e o filho é colocado como extensão do casal parental. A família se organiza em torno da manutenção da fantasia, e qualquer tentativa de confrontar a realidade é vista como ameaça.


7. A ruína financeira como metáfora da ruína psíquica

A perda da casa, os processos judiciais, o endividamento e o uso indevido do CPF da mãe não são apenas eventos concretos: são expressões materiais de uma ruína emocional que se arrasta há décadas.

A família sacrificou patrimônio, estabilidade e dignidade para sustentar a fantasia do filho dourado. A ruína financeira é a consequência inevitável de uma estrutura psíquica baseada na negação da realidade.

8. O quarto do filho adulto: símbolo da estagnação

O fato de o filho adulto viver em um quarto na casa dos pais , enquanto afirma ser milionário, é profundamente simbólico. O quarto representa:

  • a infância não superada,
  • a dependência emocional,
  • a recusa em crescer,
  • a prisão psíquica construída pela mãe.

Ele não saiu do quarto porque nunca saiu da posição infantil idealizada. A mãe não permitiu que ele se tornasse sujeito; ele não aprendeu a ser adulto.

9. A verdade que só a filha sustenta: o colapso negado pelos demais

A dinâmica familiar atinge seu ponto mais crítico quando observamos que a verdade, aquela que desmonta a fantasia do filho dourado milionário, é reconhecida apenas pela filha. Ela não participa do delírio compartilhado, não se deixa seduzir pela narrativa de grandeza e tampouco se beneficia de qualquer ilusão. Ao contrário, é justamente por enxergar a realidade com clareza que ela se torna, paradoxalmente, a figura mais isolada dentro do sistema familiar.

Enquanto a mãe narcisista e o pai conivente se agarram à fantasia para evitar o colapso psíquico, pois admitir a verdade significaria reconhecer décadas de erros, negligências e cumplicidades, a filha sustenta uma posição de lucidez. Essa lucidez, porém, não é celebrada; é punida. Na lógica da família narcisista, quem vê a verdade ameaça a estrutura inteira.

A psicanálise descreve esse fenômeno como isolamento do portador da realidade. A filha, ao reconhecer a ruína financeira, a situação do irmão, a manipulação emocional e o delírio de grandeza, torna-se a única adulta emocionalmente integrada e, por isso mesmo, a mais solitária.

Sua lucidez é uma forma de maturidade, mas também uma forma de exílio emocional dentro da própria família.

 

Considerações Finais: Quando a Lucidez se Torna Liberdade

A história dessa família revela, com precisão quase cirúrgica, como o narcisismo materno, a conivência paterna e a idealização de um único filho podem aprisionar todos em papéis rígidos, repetidos ao longo de décadas. O filho dourado permanece suspenso numa infância eterna, protegido por fantasias que o impedem de crescer. Os pais, presos à necessidade de manter o mito, sacrificam patrimônio, saúde emocional e até a própria realidade para sustentar uma narrativa que nunca se realizou. Mas, apesar de toda essa engrenagem psíquica, há uma figura que escapa ao enredo, aquela que vê, que não participa da fantasia.

A lucidez dessa figura, firme  e incômoda, é o ponto de ruptura da história. Ela não confronta para destruir; ela simplesmente não adere. E, ao não aderir, abre uma fresta por onde entra ar. A verdade, que para os demais é ameaça, para ela é caminho. A psicanálise lhe oferece o que a família nunca ofereceu: um lugar onde sua experiência tem nome, onde sua dor tem forma, onde sua história pode finalmente ser compreendida sem distorções.

Enquanto os pais e o filho continuam orbitando a fantasia, repetindo narrativas, justificando escolhas, protegendo ilusões, ela segue adiante. Não por indiferença, mas por maturidade. Não por frieza, mas por integridade. Não por abandono, mas por sobrevivência.

A realidade, essa presença que tantos tentam evitar, não precisa ser anunciada. Ela simplesmente existe. E, para quem tem coragem de enxergá-la, ela se torna libertação, não ameaça.

E é nesse gesto silencioso, o gesto de quem decide, sem alarde, deixar de carregar o peso que nunca foi seu, que a história encontra seu verdadeiro desfecho. Não no colapso da família que insiste em viver no mito, mas na possibilidade concreta de uma vida que, pela primeira vez, pertence inteiramente àquela que teve coragem de se afastar da fantasia e escolher a própria realidade


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