O Abismo do Desejo: a Psicanálise e o Filme Perdas e Danos (Damage) 1992

 


Existem filmes que ultrapassam a condição de narrativa e se transformam em verdadeiros estudos clínicos. O filme Perdas e Danos (Damage), de 1992, dirigido por Louis Malle e protagonizado por Jeremy Irons e Juliette Binoche, é um desses raros objetos cinematográficos que parecem ter sido concebidos para serem lidos com o instrumental da psicanálise. A história, ao mesmo tempo simples e complexa, um político respeitado que se envolve com a noiva do próprio filho revela, na verdade, um mergulho profundo no território do inconsciente, onde o desejo opera como força indomável e, muitas vezes, destrutiva.

O filme acompanha Stephen Fleming (Irons), um homem moldado pela ordem: político, marido, pai, figura pública. Sua vida é construída sobre a previsibilidade e o autocontrole. Mas, como Freud já advertia, o desejo não se submete à moral nem à razão. Ele irrompe, desorganiza, exige. E é justamente isso que acontece quando Stephen conhece Anna Barton (Binoche), a enigmática noiva de seu filho Martyn (Rupert Graves). A partir desse encontro, tudo o que era sólido na vida de Stephen começa a ruir.

O desejo como força que desestabiliza

Sigmund Freud, em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, descreve o desejo como algo essencialmente transgressor. Ele não se acomoda às convenções sociais; ao contrário, frequentemente se constitui em oposição a elas. Stephen é a personificação desse conflito. Sua existência é regida pela ordem simbólica, a política, a família e o casamento, mas Anna surge como aquilo que Jacques Lacan chamaria de objeto a: o que falta, o que convoca, o que desestabiliza.

Jeremy Irons constrói Stephen como um homem dividido. Há nele uma rigidez que denuncia décadas de repressão emocional. Quando Anna aparece, algo se rompe. Não se trata de paixão romântica, mas de uma urgência quase primitiva. Os encontros entre os dois são marcados por uma intensidade que dispensa palavras. É como se ambos buscassem, no corpo do outro, uma verdade que a vida cotidiana lhes nega.

Anna Barton: entre o trauma, o vazio e a sombra da psicopatia

A figura de Anna é central para compreender a tragédia que se desenrola. Juliette Binoche a interpreta com uma ambiguidade que desafia qualquer leitura simplista. Anna não é a femme fatale clássica, tampouco uma vítima passiva. Ela é uma mulher marcada por um trauma profundo , a morte do irmão, com quem mantinha um vínculo emocional intenso e que parece viver presa a uma lógica de repetição.

Sua aparente frieza, muitas vezes confundida com insensibilidade, pode sugerir traços psicopáticos. Mas, sob a ótica psicanalítica, essa frieza funciona mais como defesa do que como ausência de afeto. André Green descreve esse tipo de anestesia emocional como “o negativo do afeto”: não é que o sujeito não sinta, mas que sentir se tornou perigoso demais. Anna se protege desligando-se.

Sua relação com Stephen e Martyn, que à primeira vista pode parecer manipulação, é, na verdade, a reencenação de um drama interno. Ela não busca vantagem; busca repetir uma configuração afetiva que remete ao irmão morto. Stephen e Martyn tornam-se peças de um cenário psíquico que ela tenta reconstruir compulsivamente. Ainda assim, é inegável que sua forma de se relacionar tem um componente instrumental, marcado por uma indiferença que pode ser lida como traço psicopático, embora, no caso dela, esse traço pareça derivar do trauma, não de uma estrutura perversa.

A ausência de remorso após a tragédia, quando Martyn morre ao flagrar o pai e a noiva juntos, é particularmente perturbadora. Anna desaparece. Não há luto visível, não há pedido de perdão. Esse sumiço pode ser interpretado como indiferença radical, mas também como colapso psíquico: ela foge porque não tem recursos internos para elaborar o horror.

Anna vive na fronteira entre Eros e Thanatos. Sua sexualidade é intensa, mas não é espaço de prazer compartilhado; é território de repetição, de busca, de punição. Ela não destrói porque quer; destrói porque está presa a um circuito psíquico que não consegue romper. É essa ambiguidade, entre fragilidade e frieza, entre vítima e agente, que faz dela uma das personagens mais inquietantes do cinema de Malle.

Martyn: o filho que não vê o abismo

Se Anna é o enigma e Stephen é o homem dividido, Martyn é o elemento que sustenta a ilusão de normalidade familiar. Rupert Graves o interpreta como um jovem sensível, afetuoso, inteligente, mas também ingênuo. Ele acredita no amor, acredita na família, acredita na estabilidade. E é justamente essa crença que o torna vulnerável.

Martyn funciona como o polo luminoso da narrativa. Ele é o oposto do pai: transparente, espontâneo, emocionalmente disponível. Sua relação com Anna é marcada por um afeto genuíno, ainda que ela nunca consiga corresponder plenamente. Ele a ama com a intensidade de quem não conhece ainda as zonas sombrias do desejo. E é essa inocência que o coloca no centro da tragédia.

A psicanálise poderia descrevê-lo como o sujeito que ainda não foi confrontado com o real, essa dimensão que escapa à linguagem e que se manifesta como excesso, como ruptura. Quando Martyn descobre a relação entre o pai e a noiva, o real explode diante dele de forma literal. Sua morte acidental, ao tentar compreender o que vê, é o momento em que o simbólico desmorona para todos.

Martyn é, paradoxalmente, o personagem mais íntegro e o mais vulnerável. Ele não tem defesas contra o caos que se instala. Sua morte não é apenas um acidente; é o colapso de uma estrutura familiar que já estava rachada muito antes de Anna aparecer.

A família Fleming: uma ordem que já era frágil

A dinâmica familiar em Perdas e Danos(Damage) é construída com sutileza. A esposa de Stephen, Ingrid (Miranda Richardson), é uma mulher que vive para manter a ordem doméstica. Ela representa o ideal de estabilidade, mas sua estabilidade é rígida, quase sufocante. Há nela uma dureza que sugere que a família Fleming sempre funcionou mais como instituição do que como espaço afetivo.

Stephen, nesse contexto, é o homem que cumpre seu papel, mas que nunca se sente realmente pertencente. Martyn é o filho que tenta preencher os vazios emocionais do pai com sua própria vitalidade. Ingrid é a guardiã da aparência. E Anna, quando entra nesse sistema, não o destrói, apenas revela o que já estava fraturado.

A tragédia não nasce do caso extraconjugal; nasce daquilo que o caso expõe: a falta de diálogo, a repressão emocional, a fragilidade dos laços. Anna é o catalisador, não a causa.



O colapso final: quando o desejo devora o sujeito

A morte de Martyn é o ponto de não retorno. Stephen perde tudo: a carreira, a família, a identidade. A cena final, em que ele vive isolado em um pequeno apartamento, olhando para o nada, é a imagem perfeita do sujeito que perdeu o lugar no simbólico e não encontrou nada para substituí-lo. Ele é o homem que viu o próprio desejo devorá-lo.

Anna desaparece. Ingrid se fecha em sua dor. A família se desfaz como se nunca tivesse existido.

Conclusão: o desejo como força trágica

Perdas e Danos(Damage) é um filme sobre o que acontece quando o desejo escapa ao controle. Não é uma história moralista; não há lição de casa. O que há é a constatação de que o inconsciente não negocia com a razão. Stephen, Anna e Martyn são três sujeitos atravessados por forças internas que não compreendem totalmente. O amor, na narrativa do filme, não é força de cura; é força de destruição.

O filme termina em silêncio, e esse silêncio diz mais do que qualquer explicação. Ele nos lembra que o desejo, quando não encontra limites simbólicos, pode se tornar um abismo, e que alguns abismos, uma vez atravessados, não permitem retorno.

 

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